Dona Leopoldina e a Expedição Científica Austríaca de 1817 a 1820

Por José Theodoro Mascarenhas Menck

Consultor legislativo da Câmara dos Deputados

 

O Brasil teve o privilégio de ser retratado e estudado por artistas e cientistas europeus de primeira ordem muito antes dos demais países americanos. Ainda no século XVII, no âmbito da ocupação holandesa do nordeste brasileiro, o conde João Maurício de Nassau-Siegen trouxe ao Brasil um significativo grupo de colaboradores, dentre os quais podemos citar Willen Piso, médico que veio estudar doenças tropicais; Frans Prost, célebre pintor, então com vinte e poucos anos; Albert Eckhout, também pintor; o cartógrafo Cornelius Golijath; o astrônomo Georg Marggraf, que, com Piso, seria o autor da Historia Naturalis Brasiliae (Amsterdã, 1648), primeira obra de caráter científico sobre a natureza brasileira. Nassau também se preocupou em perpetuar os eventos políticos de sua administração, encomendando a Caspar Barlaeus uma história de seu governo no Brasil.

Em que pese essa precocidade, uma vez expulsos os holandeses, os portugueses tomaram consciência de que a recuperação do território foi fruto de uma série de felizes circunstâncias, que poderiam não mais se repetir, na eventualidade de alguma nova invasão do território da América lusitana. Diante desse quadro, Portugal tomou como política de Estado vedar o acesso das suas possessões ultramarinas a todo e qualquer estrangeiro, proibindo, inclusive, a publicação de qualquer notícia ou referência às terras americanas.

Tal política de Estado foi eficazmente seguida por várias gerações, desde meados do século XVII até a vinda da família real para o Brasil e a conseqüente abertura do Brasil ao mundo, simbolizada com o decreto da Abertura dos Portos, primeiro ato assinado pelo príncipe regente D. João, durante sua estadia em Salvador, em 1808.

A abertura dos portos e a conseqüente revogação da proibição de desembarque de estrangeiros em terras brasileiras, que coincidia com um momento difícil para os naturalistas europeus, pois o trânsito desses pela Europa se via significativamente dificultado pelas guerras napoleônicas, aliada à ausência de saber acerca dessa imensa porção do território do globo, despertou um enorme interesse científico no mundo.

Paralelo a esse contexto mundial, a princesa Dona Leopoldina, desde sua primeira juventude, ainda com cerca de 14 anos de idade, passou a demostrar um especial interesse pelas ciências naturais, especialmente pela geologia e pela botânica. Tal fato não passou desapercebido de seus professores e por seu genitor, o imperador Francisco I da Áustria, que estranharam o interesse da jovem princesa (julgavam que seria mais natural que tais inclinações surgissem em algum dos príncipes, não em uma princesa), mas nada fizeram para dificultar os estudos da jovem princesa. 

Assim sendo, em 1817, quando do anúncio próximo do casamento da arquiduquesa da Áustria Dª Leopoldina com o príncipe real do Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves D. Pedro de Alcântara, imediatamente organizou-se, sob os auspícios da Coroa Austríaca, mas integrada, também, por cientistas bávaros, aquela que viria a ser a principal expedição científica ao interior das desconhecidas (para a ciência) terras brasileiras.

A missão austríaca de 1817 trouxe um conjunto de sábios e artistas destacados. Compunham o séquito da arquiduquesa os zoólogos Johan Baptiste Von Spix (1781-1826) e Johann Natterer; os botânicos Karl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868), Johann Sebastian Mikan (1769 – 1844), e Johann Emanuel Pohl. Além do pintor Thomas Ender (1793 – 1875). A expedição fica meio ano no Rio de Janeiro para preparar a viagem, tendo contratada toda uma equipe de apoio, composta de guias, tropeiros, escravos, índios, que viabilizariam a parte operacional da expedição.

Partindo do Rio de Janeiro, o grupo expedicionário cruzou as províncias de São Paulo e Minas Gerais, subiu o São Francisco até os limites de Goiás, atravessou os sertões da Bahia, de Pernambuco, Piauí e Maranhão. Ao chegar a Belém do Pará, a expedição se dividiu para explorar alguns dos maiores rios da região amazônica, reencontrando-se, um ano depois, em Santarém, de onde retornou à Europa em 1820. Indubitavelmente, foi um feito na história da ciência, ao percorrer mais de dez mil quilômetros de regiões inóspitas, onde havia carência de tudo, e ao reunir milhares de espécimes de nossa fauna e flora, além de um vasto material etnográfico dos povos com que manteve contato, a expedição granjeou seu lugar entre as grandes expedições científicas da era moderna.

O tamanho e variedade do material recolhido possibilitou ao botânico von Martius, com a ajuda de especialistas de todos os países, publicar o maior estudo já feito sobre flora de determinado país, Flora Brasiliensis, obra que veio à luz entre 1840 a 1906, e onde são descritas e catalogadas mais de 20 mil espécies de vegetais, dos quais mais de cinco mil pela primeira vez.

Spix e von Martius descreveram sua aventura no livro Viagem pelo Brasil nos Anos de 1817 a 1820, no qual esboçaram imagens da natureza e da sociedade brasileira em três tomos, editados em 1823, 1828 e 1831, respectivamente, e cuja edição brasileira, promovida pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), data de 1938.

Tendo sido um sucesso literário, o livro de Spix e de von Martius recebeu muitas edições de luxo na Europa, sendo ilustradas por numerosos desenhos da autoria de Thomas Ender (que deixou mais de 700 aquarelas sobre o Brasil), do próprio von Martius, além de outros membros da expedição.

Ender também foi responsável por ilustrações para as viagens de Pohl. Muitos de seus diversos desenhos da região do Rio de Janeiro e da província de São Paulo somente viriam a ser conhecidos após sua morte, em 1875.

 

 

 

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