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24/11/2015 12h32

Selfies e o mundo solitário e viciante da internet

A consultora da Câmara para a área de ciência, tecnologia, comunicação e informática, Beth Veloso, discute neste episódio a nossa relação com o viciante – e apaixonante – mundo da tecnologia.

Não existe nada mais viciante no mundo de hoje do que a tecnologia, certo? E o que dizer se misturamos tecnologia e celulares com paixão? O resultado pode ser visto no filme Ela, uma das películas mais recentes a retratar o drama da centralidade da tecnologia em nossas vidas! O ator principal, interpretado por Joaquin Phoenix, se apaixona por um programa de computador. Escritor, solitário e melancólico, o filme é sobretudo comovente porque acende o sinal vermelho sobre o tempo em que estamos vivendo: é mais fácil se relacionar com computadores do que com pessoas de carne e osso!

Na máquina, tudo parece perfeito: a voz, o papo, a sintonia e o que falar da memória então. Será que o mundo de respostas prontas foi criado pela Internet, fazendo-nos abandonar das chances de termos uma vida real? Na época do individualismo, os likes satisfazem o ego, mas a pessoas trocam um bom bate-papo por teclados em que se desafiam à distância: a Internet vira uma terra arrasada, onde tudo pode, e o código de boas maneiras é rasgado todos os dias.

Hollywood começou a discutir o fenômeno da alienação provocado pelas novas mídias, um mundo cheio de paradoxos e que clama pelo atemporal: você tem três mil amigos, mas não tem nenhum. Você se autopromove, mas isso não te leva a absolutamente nada. Você alcança grandes audiências mas não dialoga com ninguém em particular. Assim como as conversas, as pessoas ficam fragmentadas numa visão homogênea e muitas vezes sectária dos assuntos esparsamente discutidos online. Tudo é apressado, corriqueiro e descartável, ou no neologismo, deletável, mas ao mesmo tudo que você escrever estará lá para sempre. Uma terra de maravilhas e de muita miséria humana.

Será que a internet nos fez mais isolados no que temos de mais humano: a sociabilidade? Pesquisadores advogam que a tecnologia nos fez mais sozinhos do que nunca, numa tradução literal vinda da palavra “selfie”. Sem a elegância de uma carta ou a riqueza de uma comunicação de voz, a internet fica higiênica nas demandas mais críveis do ser humano, porém é de onde nós tentamos alimentar nossos mais primitivos desejos de empatia e significação da própria vida.

A internet, teoricamente, criou uma certa relação pseudo-humana que resolveria o problema da solidão mundial e é um fantástico meio de integração, sem que precisemos sair do lugar. Somos meio humanos, meio robôs, como no filme “Ela” em que moça mostrar seus sentimentos fazendo uma atualização viral. E a razão disto é que não mais sabemos estar só. Cada vez mais observamos os outros, e suas vidas meramente banais, para deixarmos de examinar a nós mesmos.

Como diz a bela metáfora de Roberto Shinyashiki no livro “O Sucesso é ser Feliz”, cada vez mais nos parecemos com o cachorro que corre atrás do pau que o dono joga. Essa espécie de sociedade com concertação coletiva, mas de sentimentos fragilmente individualizados pela ausência de consistência afetiva. Tecnicamente, quanto mais amigos virtuais, menor o risco de uma solidão precoce não. E as mensagens instantâneas viraram o principal remédio contra esse baixo astral provocado pela necessidade de encarar a si mesmo.

Nós pensamos que, permanecendo “conectados” nos sentiremos menos solitários, mas na verdade acontece o oposto. Se não somos capazes de estarmos sós, somos mais propensos a sofrer de solidão. Uma pesquisa recente constatou que o americano comum sofre de uma forte crise de solidão, em média, uma vez a cada quinze dias. De acordo com Sherry Turkle, psicóloga Americana que trata do mundo digital, “se não ensinarmos nossas crianças a ficarem sozinhas, sofrerão sempre de solidão”.

Num belo post no seu site equilibrando.me , o guru da felicidade, o monge Matthieu Ricard, explica por que nos sentimos sós no meio dos outros, e como usamos as redes sociais como âncoras para personalidades e mentes cada vez mais frágeis. “Nós pensamos que, permanecendo “conectados” nos sentiremos menos solitários, mas na verdade acontece o oposto”, diz o texto. “Se não somos capazes de estarmos sós, somos mais propensos a sofrer de solidão".E o que é mais preocupante neste cenário é o futuro dos nossos filhos. Em um mundo infantilizado, povoado não mais por histórias épicas e contos de fadas, mas por um zapear constante em chats cheios de fofocas com os colegas da escolar, as crianças não sabem mais ficar por um instante a sós. E esse é o caminho mais curto para cultivarmos dentro de nós a semente daninha da eterna solidão.

Apresentação – Lincoln Macário
Participação especial – Beth Veloso