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27/10/2015 13h35 - Atualizado em 06/01/2016 12h24

Papo de futuro: sem ciência, não há fronteira

A consultora da Câmara para área de ciência, tecnologia e informática, Beth Veloso, relata nesta edição as desventuras comuns a todos os usuários de telecom no Brasil

Eu comecei a minha vida profissional na área de ciência e tecnologia, era estagiária no CNPq, o órgão que financia pesquisadores no Brasil e no exterior. Naquela época, a seleção era rigorosa, os cientistas todos usavam óculos redondos e a vida de estudante era muito dura: as bolsas eram de baixo valor e os pagamentos atrasavam com frequência. Isso faz 27 anos. De lá para cá, muita coisa mudou.

A Internet virou realidade, a revolução tecnológica, junto com a informática, está mudando tudo, e houve uma debandada de jovens invadindo universidades estrangeiras para gerar um "choque cultural" e "intelectual", no programa chamado Ciência sem Fronteiras. O programa deu uma visibilidade enorme para o governo, mas todos os contemplados que conheço eram filhos de classe média abastada e não precisavam de financiamento estatal para aprender línguas, novas culturas e testar uma profissão.

Não é bem assim que se faz pesquisa no mundo todo, me diz a experiência de quem milita nesta área há algumas décadas. O investimento em Ciência e Tecnologia deve ser planejado num cenário de dez anos, no mínimo. Um ano não muda nada. O contexto deve ser focado para as vocações locais, regionais e as estratégias nacionais de desenvolvimento, como, por exemplo, novas tecnologias, como nanotecnologia, energia nuclear e engenharias. Enfim, qual é o ponto fraco do Brasil? E isso é uma decisão de governo, dentro de um Programa de Nação. O foco não é uma geração de jovem, mas o futuro da Nação e de todos os brasileiros.

Começamos a perder fôlego em áreas em que já fomos referência mundial, como o de energias alternativas, porque não continuamos investindo nisso. Um exemplo é a política espacial, em que os órgãos e seus aparatos, e um exemplo é a base espacial de Alcântara, seguem seu movimento inercial de falta de recursos financeiros.

No Brasil, quem faz ciência usa mais do que verbas públicas. Usa também um espírito missionário que não os faz desistir diante das mais difíceis restrições: os cientistas se aposentam e não são substituídos; ganham pouco quando trabalham para o governo, mas não têm mercado nas indústrias de inovação, que são pouquíssimas; criam invenções e não recebem nada por isso; quando são assediados pelo mercado são tratados como funcionários públicos por seus chefes e a resposta é não; sem falar que a tributação excessiva; o fraco sistema de compras governamentais; a morosidade para importação de insumos básicos; as leis de incentivos que só beneficiam as grandes empresas não ajudam a fazer da ciência um lugar comum nas empresas.

A Confederação Nacional da Indústria confirmou em recente pesquisa que o nível de inovação nas empresas é muito baixo, e a pesquisa na universidade nem sempre tem um caráter prático. Muitos esquecem de perguntar: como a sociedade pode se beneficiar com isso?

Câmara e Senado estão preparando um seminário para discutir esse assunto tão esquecido quanto dogmático: de fato, ciência é para poucos no Brasil. E esse é o problema. Nenhuma surpresa num país onde os jovens querem formar duplas sertanejas, mas nem de longe sonham em ser cientistas. Isso não dá Ibope com as garotas, nem dinheiro no bolso.

A ciência requer devoção, persistência, uma capacidade enorme de frustração e certo espírito de voluntariado: muitas vezes, o cientista trabalha de graça. Mas o pior é não encontrar apoio do governo; leis de incentivo, especialmente para o pequeno e para o que está começando, e uma educação voltada para o despertar da inteligência e a busca da inovação, do novo, ou melhor, do jeito novo de fazer.

Outro dia li uma frase que dizia: "a criatividade é a inteligência se divertindo". O jovem cientista sem projeto, sem meta, sem avaliação, sem relatório e sem invenção pode ser algo mais do que um turista, mas não vai muito além, como vimos em vários casos de bolsistas financiados pelo programa Ciência sem Fronteiras. Financiar a ciência aqui dentro no Brasil, melhorar a posição do país no ranking internacional de países mais inovadores, já que estamos no meio do caminho, ou seja, na posição 70 de 140, e colocar as empresas dentro das universidades e dos institutos de pesquisa é uma estratégia mais do que conhecida, e pouco aplicada.

Numa área em que a invenção é que manda, não dá para inventar uma nova fórmula que permita fazer uma pesquisa em ciência e tecnologia sem uma verdadeira política que financie e planeje as ações e programas como forma de conquistar respeito e temor mundial. Sem ciência, não há novas fronteiras, e sem investimentos, públicos e privados, não há ciência que resista, nem mesmo com muita propaganda.

Mande suas dúvidas e sugestões para papodefuturo@camara.leg.br

Apresentação - Elisabel Ferriche e Marcio Sardi
Participação especial - Beth Veloso