“Ancestralidade” revela o que existe antes da palavra
Há exposições que se visitam com os olhos; outras exigem que o visitante leve também o corpo, a memória e a intuição. “Ancestralidade”, mostra da artista Eliane Breitenbach em cartaz até o dia 29 de janeiro na Galeria Décimo da Câmara dos Deputados, pertence a esse segundo grupo. As 21 pinturas em técnica mista funcionam como vestígios de um tempo que não está nos livros de história, mas impresso na experiência humana mais profunda. O gancho da exposição está justamente aí: provocar o espectador a reconhecer, nas imagens aparentemente primitivas, algo que lhe é íntimo e familiar.
Nas obras, a ancestralidade deixa de ser apenas lembrança ou referência cultural e se transforma em força vital. Linhas, grafismos e figuras elementares constroem uma espécie de escrita visual própria, que oscila entre registros rupestres e atmosferas oníricas. Nada parece totalmente planejado: as cores e as formas surgem juntas, como se a pintura acontecesse no mesmo ritmo do pensamento. O resultado é um território ambíguo, onde sonho e realidade se sobrepõem, convidando o público a desacelerar o olhar e a perceber camadas de sentido que não se revelam de imediato.
O uso dos materiais reforça essa sensação de retorno à origem. Tinta acrílica, barbante, lápis de cera, caneta e até terra do Cerrado não aparecem como recursos acessórios, mas como parte essencial da identidade de cada obra. A matéria fala tanto quanto a imagem. Há um diálogo constante entre simplicidade e complexidade, gesto livre e estrutura rígida, expressionismo e geometria. Eliane transita por esses caminhos com naturalidade, criando composições que parecem decifráveis apenas por ela — e, ao mesmo tempo, abertas à interpretação sensível de quem observa.
Com curadoria do artista plástico Fabio Pedrosa, a exposição é promovida pelo Centro Cultural Câmara dos Deputados e também carrega a trajetória singular de sua autora. Jornalista da Câmara, Eliane Breitenbach trabalha com arte desde a década de 1990 e traz para a pintura uma vivência amadurecida por estudos, residências artísticas e pelo contato contínuo com outros criadores. Sua formação inclui o curso de Arqueologia do Cotidiano no Parque Lage, no Rio de Janeiro, experiência que ajuda a compreender o espírito da mostra: cavar camadas do dia a dia para fazer emergir imagens ancestrais, atávicas, como quem traz à superfície algo que sempre esteve ali, esperando ser visto.
Serviço
Exposição “Ancestralidade”, de Eliane Breitenbach
Visitação: 11 de dezembro de 2025 a 29 de janeiro de 2026
Horário: 9h às 17h
Local: Galeria Décimo – Anexo IV da Câmara dos Deputados - entrada franca.