Cunha depõe em CPI e vê 'escolha política' em pedido de investigação

Segundo o presidente da Câmara, petição da PGR é 'piada' e busca transferir a crise do governo para o Legislativo
12/03/2015 15h55

Rodolfo Stuckert

Cunha depõe em CPI e vê 'escolha política' em pedido de investigação

Depoimento durou mais de 4 horas e foi elogiado pelos parlamentares

Em depoimento voluntário de mais de quatro horas na Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga irregularidades na Petrobras, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, classificou de “piada” o pedido de abertura de inquérito contra ele no Supremo Tribunal Federal; apontou o que considera “incoerências” na petição apresentada pela Procuradoria Geral da República (PGR) ao STF; afirmou não ter bens no exterior; e reiterou não conhecer o doleiro Alberto Yousseff ­ nem ter proximidade com o lobista Fernando Baiano, acusados de serem operadores nas fraudes cometidas contra a Petrobras.

Para Cunha, o pedido de abertura de inquérito da PGR contra 47 políticos foi uma “piada”, baseada em “escolha política”, e busca transferir a “crise” [pelas denúncias contra a administração das Petrobras] do governo para o Poder Legislativo.

“Colocar a honra de quem quer que seja e dizer que o pedido de abertura de inquérito não constrange, constrange! Principalmente, a quem está no exercício do poder. À toa. Colocar de uma forma irresponsável e leviana, por escolha política, alguém para investigação é criar um constrangimento para transferir a crise do lado da rua para cá e nós não vamos aceitar”, declarou durante seu depoimento.

Depois de expor suas considerações, Cunha recebeu elogio de diversos líderes partidários, como o líder do PT, Sibá Machado (AC). Para ele, não há razão para o nome de Eduardo Cunha ser citado na lista de políticos suspeitos de terem cometidos irregularidades, enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF). “Não há consistência na acusação”, disse. “Essa é a opinião de minha bancada”. Segundo ele, a CPI deve “separar disputas políticas de fatos concretos”. Para ele, a divulgação de supostas irregularidades cometidas sem provas “é maldosa para a imagem das pessoas”.

Durante seu depoimento, o presidente da Câmara negou ter recebido qualquer “benefício indevido” e disse não ter relação próxima com o lobista Fernando Soares, conhecido como "Fernando Baiano" e acusado de ser operador das supostas propinas pagas ao PMDB. Cunha ressaltou ainda que o depoimento do doleiro Alberto Youssef, na parte em que é citado, não foi confirmado nas delações do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do executivo da Toyo Setal Júlio Camargo, um dos delatores da Lava Jato.

“As delações teriam que ter depoimentos coincidentes. Nos pedidos de arquivamento, há casos em que o procurador diz que a declaração feita por um delator não foi confirmada pelo outro delator. Aquilo que Alberto Youssef falou, fazendo menção a Júlio Camargo, não foi confirmada por ele [Júlio Camargo]. O senhor Paulo Roberto Costa não faz menção ao nome de Eduardo Cunha com relação a esse fato”, ressaltou Cunha.

Ao longo de sua manifestação na CPI da Petrobras, Eduardo Cunha declarou diversas vezes que a Procuradoria Geral da República fez “escolha política” ao elaborar a lista de autoridades com foro privilegiado que deveriam ser investigadas pelo Supremo.

“O Ministério Público escolheu a quem investigar, não investigou todos, e por motivações de natureza política escolheu aqueles que seriam alvo de investigação”, enfatizou.

Na avaliação de Cunha, o arquivamento de suspeitas contra alguns políticos, sobretudo contra o ex-senador Delcídio Amaral (PT-MS), é uma “contradição”, já que, para ele, os indícios contra o petista não são menores que os dos demais investigados.  “O arquivamento do senador Delcídio Amaral, e não estou fazendo acusação ao senador, é uma verdadeira vergonha. Existe uma contradição clara”, afirmou.

Ele também citou o caso da inclusão da senadora Gleisi Hoffman (PT-PR) na lista como “outra incoerência”. Segundo Cunha, “as motivações dele [Janot] para citar a senadora Gleisi Hoffman são absurdas. Ou ele abriria inquéritos para todo mundo ou não deveria ter aberto para ela”.

 

Repercussão

O depoimento do presidente da Câmara recebeu diversos elogios dos parlamentares presentes.

O líder do PSDB, deputado Carlos Sampaio (SP), por exemplo, afirmou que não há indícios de irregularidades cometidas por Eduardo Cunha. “Alguns investigados têm provas robustas contra eles, e outros sequer tem indícios contra eles, e os que existem foram desmentidos.”

“Evidentemente não estamos utilizando a mesma regra para todos os investigados”, afirmou Sampaio. “Entramos na linha da ilação e não da confirmação”, completou. “Esse tipo de atuação não combina com ação do Ministério Público”, criticou.

O líder do Solidariedade, deputado Arthur Oliveira Maia (BA), também demonstrou seu apoio ao presidente: “O depoimento de Cunha devolveu à Casa a convicção de que seu presidente não tem nada a ver com esses episódios.”

O líder do PTB, deputado Arnaldo Faria de Sá (SP), por sua vez, afirmou que “a crise do outro lado da rua [do lado do Palácio do Planalto] não pode ser transferida para este lado”. Para ele, a tentativa de se incluir o presidente Eduardo Cunha no rol dos investigados busca atingir a Casa.

O líder do PR, Maurício Quintella Lessa (AL), afirmou que Eduardo Cunha tem a “total confiança” da legenda e afirmou que há seletividade nas investigações por parte do Ministério Público.

Já o líder do PMDB, Leonardo Picciani (RJ), destacou que no estado de direito qualquer cidadão pode ser alvo de investigações e “isso não tem nada demais”. Segundo ele, o pedido de abertura de inquérito feito pelo Ministério Público é muito frágil e apresenta fatos que não têm nexo de causalidade entre si.

Para o líder do Democratas, Mendonça Filho (PE), se Eduardo Cunha tivesse algo a esconder, não teria apoiado a criação de uma CPI. Ele disse que se considera “satisfeito” com o depoimento. De acordo com ele, “o Ministério Público, em qualquer lugar do mundo, deve ter autonomia”.