19/03/2018 03h04

Vacinas - febre amarela - Bloco 4

O surto de febre amarela provoca uma verdadeira corrida aos postos de saúde. Diante do temor generalizado da doença, reina a desinformação. Ao contrário do que se pensa, por exemplo, os macacos não são vilões, mas aliados no combate à febre amarela. Acompanhe mais capítulo.

O Brasil vive um surto de febre amarela e, por isso, uma série de informações desencontradas circulam, principalmente nas redes sociais, sobre a doença e a vacina. Ao mesmo tempo em que há uma corrida aos postos de saúde até mesmo por pessoas já vacinadas em busca de uma segunda dose, há circulação de mensagens sobre casos de morte em decorrência da doença. Nós conversamos, então, com diversos especialistas para tentar organizar essas informações.

A febre amarela é uma doença grave, que, segundo o médico e deputado Paulo Foletto, do PSB do Espírito Santo, tem alto índice de mortalidade.

Paulo Foletto: "O fígado para de funcionar e o fígado é um órgão vital. E aí você morre com insuficiência hepática. Não tem muito carimbo na testa de quem vai ter isso não. Sabe-se que é um percentual mais ou menos fixo, em x que vão adoecer, x% terão mortalidade. 10 a 20%. Às vezes até mais, às vezes menos. Mas é uma doença grave, que mata mesmo".

A boa notícia que todo mundo sabe é que existe vacina eficaz contra febre amarela. Mas ela pode ter efeitos adversos graves. Por isso, historicamente a vacinação só é feita em regiões onde há circulação do vírus, em geral, regiões de mata. Mesmo as pessoas que estão doentes agora foram contaminadas por mosquitos que circulam em região de mata. Esse é o chamado ciclo silvestre da doença e, por isso, explica a Carla Domingues, do Ministério da Saúde, são as pessoas que moram, trabalham ou visitam essas áreas que precisam ser vacinadas primeiro.

Carla Domingues: "Temos vários condomínios, mesmo em áreas urbanas, que têm grandes florestas nos quintais. Pessoas que vão fazer ecoturismo, que vão trabalhar em áreas de matas, essas precisam ser vacinadas. No segundo momento, se vai vacinar as pessoas que moram na cidade porque essas pessoas, em algum momento, elas podem ir para área de mata. Essa busca desenfreada da vacina faz com que eu tenha que deixar de vacinar quem precisa para vacinar quem precisa".

Outra restrição da vacina de febre amarela é a idade. Ela só deve ser administrada em pessoas de 9 meses a 59 anos. Nos casos fora dessa faixa, deve-se observar a situação de risco.

Até 2013, havia recomendação da Organização Mundial da Saúde para se repetir a vacinação de febre amarela a cada 10 anos. Essa orientação foi alterada depois de estudos indicarem que a imunidade promovida pela vacina durava a vida toda. O Ministério da Saúde adotou a nova orientação. Mas, segundo o Akira Homma, da Fiocruz, há estudos em andamento para confirmar se essa recomendação é válida para o Brasil. Até lá, ficamos apenas com uma dose da vacina.

Essa regra vale para a dose completa da vacina, de 0,5 ml. Quem tomar a dose fracionada, de 0,1 ml, vai precisar repeti-la, mas só depois de oito anos, pois os estudos revelaram que, pelo menos por esse período, a dose fracionada protege tão bem quanto a dose única. Quem explica é o diretor da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, Rodrigo Lima.

Rodrigo Lima: "Qual o inconveniente da dose fracionada? É que você vai ter que tomar o reforço alguns anos depois. Mas o conveniente é que, para cada pessoa que eu vacinaria com uma dose da vacina, eu vou conseguir vacinar 5. É uma estratégia super custo efetiva do ponto de vista de vacinar uma grande população num curto intervalo de tempo de forma mais econômica. Atento a isso, o Ministério da Saúde resolveu adotar essa estratégia. E ela está correta".

E o que pode ter causado esse surto de febre amarela? Para o médico e deputado Odorico Monteiro, do PSB do Ceará, não se pode descartar o impacto do desastre ambiental em Mariana.

Odorico Monteiro: "O desastre de Mariana matou uma quantidade enorme de sapos e o sapo tem um papel na manutenção do equilíbrio da população de mosquitos, uma vez que ele se alimenta do mosquito. (...) Se a gente for ver o perfil epidemiológico da doença, ela basicamente tem a ver com o percurso do desastre de Mariana".

O deputado afirma, ainda que as autoridades sanitárias subestimaram a ameaça e que deveriam ter realizado, de forma antecipada, um forte programa de imunização na região. A Carla Domingues, do Ministério da Saúde, argumenta que não há evidências dessa relação causal entre o acidente de Mariana e o surto de febre amarela, que, segundo ela, é comum ocorrer a cada ciclo de seis a sete anos no Brasil. Ela lembra ainda que, como a vacina tem eventos adversos graves, não se deve vacinar a população inteira, apenas quem se encontra em área de risco.

Carla Domingues: "Eu tenho certeza que, se nós tivéssemos feito uma vacinação em área sem recomendação e estivessem acontecendo eventos adversos, nós estaríamos sendo criticados pelo fato de por que se vacinou naquela área se não tinha recomendação de vacinar".

A Fiocruz esclarece que os macacos não são vilões, pelo contrário, são aliados no combate à febre amarela e que, por isso, não devem ser mortos pelas pessoas. Primeiro porque eles não transmitem a doença para os humanos. Segundo porque a morte de macacos por Febre Amarela é um sinal de alerta para a vigilância sanitária, que pode, assim, adotar medidas de controle para evitar que a doença chegue aos humanos.

Vale a pena se vacinar, todo ano, contra a gripe? Confira, no último capítulo da Reportagem Especial.

Reportagem - Verônica Lima
Produção - Lucélia Cristina, com colaboração de Cristiane Baker
Edição - Mauro Ceccherini