05/12/2016 08h10

Tragédia em Mariana: como está a cidade histórica, um ano depois - Bloco 10

Como está a cidade de Mariana, hoje, um ano depois do rompimento da barragem do Fundão? A paralisação da Samarco provocou desemprego. Os turistas sumiram da cidade histórica! E as pessoas que moravam no distrito de Bento Gonçalves e ficaram desabrigadas, como estão? Você acompanhou nesta e na semana passada, Reportagem Especial sobre a tragédia de Mariana, um ano depois. Confira, agora, o décimo e último capítulo.

A sede do município de Mariana, a primeira cidade de Minas Gerais, fica a 40 quilômetros da barragem de mineração que rompeu em novembro de 2015.

A velha cidade, com seus casarões, não sofreu fisicamente os efeitos da avalanche de lama que desceu rio Doce abaixo, deixando 19 mortos, centenas de propriedades destruídas e um prejuízo ambiental incalculável.

O impacto no município foi de outro tipo: financeiro. A paralisação das atividades da mineradora Samarco provocou o desemprego de 13 mil pessoas na cidade. Deste total, 8 mil eram diretamente ligadas à mineração. Outras cinco mil trabalhavam no comércio e empresas locais que dependiam da economia gerada pela atividade.

Reportagem da Rádio Ufop, da Universidade Federal de Ouro Preto, percorreu Mariana, visitou o distrito de Bento Rodrigues, destruído pelo rompimento da barragem, e concluiu que a cidade ainda vive as consequências da tragédia.

Só em royalties, são R$ 6 milhões a menos por mês nos cofres do município, desde que a Samarco deixou de extrair minério. E, em 2017, a perspectiva é de menos R$ 10 milhões por mês, por conta do ICMS que deixou de ser recolhido.

Com isso, a prefeitura ameaça demitir 400 dos 3.500 funcionários. O prefeito Duarte Júnior defende abertamente que a saída é a volta das atividades da Samarco, que é ao mesmo tempo fonte e solução dos problemas.

Duarte Júnior: "Para mim, desde o primeiro momento, é extremamente importante a volta da empresa. Já me posicionei disso desde o início, quando houve a tragédia, que a cidade de Mariana, por ser extremamente dependente da mineração, não há futuro sem a volta da Samarco, em relação à geração de empregos."

A situação piorou ainda mais com o sumiço dos turistas, que passaram a evitar Mariana, achando que a cidade foi destruída e afetada pela lama, o que não aconteceu, como conta o secretário-adjunto de Turismo José Luiz Papa.

José Luiz Papa: "Com este rompimento da barragem, para nós se tornou mais difícil. Por que se tornou mais difícil? Porque se passou para as pessoas uma imagem de que Mariana havia sido afetada com o rompimento."

A crise econômica, em Mariana, é ainda maior que no resto do país. Com isso, os moradores passaram a hostilizar os sobreviventes de Bento Rodrigues, abrigados em hotéis e casas alugadas enquanto a Samarco não constrói novo vilarejo, o que só deve acontecer em 2019.

A dona de casa Marinalva dos Santos Salgado relata que os desabrigados, além de terem perdido todos os seus bens materiais e suas memórias com o desastre, são agora vítimas de discriminação na nova vida que não escolheram.

Marinalva dos Santos Salgado: "Lá, a gente vivia tranquilo. Aqui a gente não tem tranquilidade. A gente sofre muita discriminação aqui, depois da tragédia. A gente não é bem visto aqui. Que hoje a gente não tem uma foto da gente, não tem muitas coisas, bens materiais que dinheiro nenhum compra, que a gente não consegue de novo. Não é falar que perdeu uma casa. A gente perdeu uma vida toda lá."

Foi o que aconteceu com o casal de idosos Maria do Carmo Pereira Ramos e José Patrício Oliveira. Os dois vivem hoje em Mariana, mas não superaram ainda a perda de sua roça e animais. O inventário da perda que sofreram não chama atenção pelos valores monetários. Mas era parte da vida que tinham.

Maria do Carmo Pereira Ramos: Tinha horta, tinha três hortas, tinha 58 cabeças de galinha botando, quatro galos, 13 frangos grandes na hora de vender, 26 pintinhos criando.

José Patrício Oliveira: Eu perdi oito tachos, eu perdi três socadinhos e uma sela, eu perdi uma égua, eu perdi, eu perdi tudo. Ferramenta, maquita, furadeira, tudo. Eu gostava de lá porque eu levantava cedo, cinco horas já levantava, fazia o café, e já saía. Saía com os três cachorros, pegava o caminho."

A repórter Larissa Gambelini, da Rádio Ufop, visitou o que restou de Bento Rodrigues, um ano depois da destruição. Ela conta que viu restos de casas saqueadas, poeira, lama seca e abandono em meio a barulhos de trator, caminhões, apitos e operários trabalhando. Ela e a equipe da rádio foram autorizadas a ficar menos de 15 minutos no local.

E os funcionários da Samarco que serviram de guias fizeram questão de mostrar a recém-construída sala de monitoramento da barragem, equipada com sirenes e câmeras de segurança. Nada disso existia quando a barragem rompeu.

Larissa Gambelini: "Paredes que permanecem de pé, hoje manchadas de lama, expõem mensagens contrárias à empresa. O tempo de permanência na antiga Bento Rodrigues não ultrapassa dez minutos. As funcionárias da empresa tinham pressa e nos conduziam à sala de monitoramento, reformada após o rompimento da barragem. A estrutura ganhou câmeras de segurança, com visão para todo o campo de trabalho da empresa. Tão criticada pelos moradores de Bento Rodrigues, a sala de monitoramento passa a estar interligada, com sirenes e sensores de vigilância que funcionam 24 horas.”

Um ano depois do acidente, a Samarco ainda não foi autorizada a voltar a operar. É preciso, antes, a garantia de que novos desastres não voltem a acontecer.

Termina aqui reportagem especial sobre Mariana.

Reportagem – Antonio Vital
Edição – Mauro Ceccherini
Trabalhos Técnicos – João Vicente