05/12/2016 08h02

Tragédia em Mariana: as causas do rompimento da barragem do Fundão - Bloco 2

Quais foram as causas do rompimento da barragem do Fundão, em novembro do ano passado, que matou 19 pessoas? A Samarco alega que a empresa sempre agiu de forma responsável. Mas sinais de pré-ruptura já haviam sido observados um ano antes. E o Ministério Público de Minas Gerais diz que a empresa não tomou as medidas necessárias para conter o acúmulo excessivo de água.

Documentos obtidos pela polícia e pelo Ministério Público indicam que já havia sinais de pré-ruptura da barragem do Fundão, em Mariana, em 2014, um ano antes do desastre que comprometeu quase 700 quilômetros do rio Doce, entre Minas Gerais e Espírito Santo, e matou 19 pessoas.

Em agosto de 2014, uma equipe de inspeção da Samarco verificou o surgimento de trincas no alto de um dos paredões da barragem, o que poderia indicar o início de um movimento de todo o maciço.

A reação da Samarco foi providenciar um aterro na base do paredão, o que fez com que sua equipe de engenheiros concluísse que a barragem estava estável.

Mas o engenheiro Joaquim Pimenta de Ávila, que projetou a barragem em 2007 e depois foi contratado pela Samarco como consultor, advertiu que a análise de estabilidade não estava considerando uma outra hipótese para as trincas: a de estar ocorrendo o que os especialistas chamam de liquefação estática, que é quando um material sólido passa a se comportar como um fluido.

Isso acontece quando tem água demais nas fundações da represa, que também é feita de resíduos de mineração.

Para o promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, coordenador de Meio Ambiente do Ministério Público de Minas Gerais, essa foi a causa do rompimento da barragem. E a empresa não fez nada para impedir o que já estava apontado em seus próprios relatórios internos.

Carlos Eduardo Ferreira Pinto: "Não combinam com água barragens. Ela se rompeu porque havia excesso de água dentro dela. Por que que houve excesso de água e por que isso não foi monitorado e por que que a Samarco não tomou as medidas necessárias para conter esse acúmulo de água indevido?"

A liquefação, de acordo com o Ministério Público, poderia ter sido causada pelas sucessivas elevações da altura da barragem, feitas pela Samarco em função do crescente aumento da produção de pelotas de minério de ferro naquela unidade.

Pimenta de Ávila recomendou a instalação de uma série de equipamentos que medem a pressão do solo, chamados piezômetros, para verificar se havia algum movimento.

Ele pediu nova análise de estabilidade, assim como a correção do eixo da barragem.

Naquele ponto, o eixo havia sido recuado para evitar uma pilha de rochas sem minério de ferro da Vale do Rio Doce, uma espécie de sobra sem valor da mineração.

O recuo não estava previsto no projeto original nem no Manual de Operações da barragem, que estava desatualizado. E, pior: a altura da parede havia sido elevada em 25 metros nos doze meses anteriores.

O promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto não tem dúvida de que o manual desatualizado impediu o monitoramento da possibilidade de liquefação, que acabou provocando o rompimento.

Carlos Eduardo Ferreira Pinto: "Desde 2014 os próprios relatórios de estabilidade da Samarco traziam a informação de necessidade urgente de atualização da Carta de Risco e do Manual de Operação. Isso levou fatalmente ao material sujeito a liquefação, como monitoramento omisso e desatualizado quanto à análise de estabilidade. Os relatórios de estabilidade da Samarco não faziam análise da possibilidade de liquefação e é o que houve no rompimento."

Documentos obtidos pelo Ministério Público indicam que a Samarco sabia do problema e que havia até uma estimativa de que seriam necessários 2 milhões de metros cúbicos de material, e um ano de serviço, para corrigir o eixo da barragem.

Em depoimento à polícia, Pimenta de Ávila disse que as informações indicavam claramente que a barragem apresentava graves sinais de pré-ruptura.

Ele recomendou reforço nas paredes e a volta do eixo da barragem ao projeto original. Nada disso foi feito e a Samarco se limitou a monitorar o solo e a fazer drenos para evitar o acúmulo de água na barragem.

Um ano antes do alerta feito por Pimenta de Ávila, um relatório assinado por cinco engenheiros contratados pela Samarco já apontava que a barragem apresentava claros sinais de que a drenagem interna já se mostrava insuficiente.

Para Marcelo Belisário, superintendente do Ibama em Minas Gerais, os diques feitos para escoar a água da barragem não eram suficientes.

Marcelo Belisário: "Essas estruturas eram de diversas ordens, né. As principais eram diques. Em um único evento ele foi totalmente assoreado, em meio dia de chuva, tá. Então, a gente estava lidando com uma escala muito maior de evento que as ações tomadas não eram nem próximas das necessárias, né."

Segundo o Ministério Público, em vez de resolver o problema, diante das evidências de risco, a empresa se limitou a adotar paliativos e nem as obras de drenagem estavam concluídas quando a barragem se rompeu.

Durante as investigações, a Samarco negou ter sido alertada sobre os riscos de liquefação da barragem e informou que a ameaça não foi apontada em nenhum relatório de seus engenheiros.

Em depoimento à comissão externa da Câmara que acompanhou o caso, o diretor de Projetos da Samarco, Maury de Souza Júnior, disse que a empresa sempre agiu de forma responsável.

Maury de Souza Júnior: “A Samarco sempre teve o compromisso de ser uma empresa sustentável, de ser uma empresa responsável. Nós não fugiremos. Essa é uma forma de demonstrar para a sociedade o nosso compromisso e a nossa responsabilidade."

O rompimento da barragem, em novembro de 2015, despejou 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério no rio Doce, entre Minas Gerais e Espírito Santo, afetou 39 municípios, destruiu a fauna e a flora num percurso de quase 700 quilômetros e matou 19 pessoas.

Será que a tragédia de Mariana poderia ter sido evitada? Confira no terceiro capítulo da Reportagem Especial.

Reportagem – Antonio Vital
Edição – Mauro Ceccherini
Trabalhos Técnicos – João Vicente