23/06/2012 20h15

Poupança: por que ela é uma preferência nacional - Bloco 5

Nesta série de cinco reportagens, vamos entender as recentes mudanças feitas pelo governo federal na remuneração o mais antigo e mais procurado investimento dos brasileiros: a poupança. Você vai conhecer a história dessa modalidade de aplicação financeira, saber o que pensam os parlamentares sobre o tema, conhecer projetos em tramitação na Câmara dos Deputados e ouvir a opinião de especialistas. Na última reportagem, você vai saber porque a poupança conquistou a preferência nacional.

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O mundo aprendeu a lidar com valores há muito tempo. Quando esses valores passaram a ser representados por algum tipo de moeda, como ouro ou pedras de sal, economizar para gastar depois passou a fazer parte da cultura de todos os povos.

Antes de Cristo, os fenícios, inventores do alfabeto, já haviam criado papéis que representavam valores. Era o começo da representação de uma moeda, no lugar da troca direta de mercadorias.

E o tempo passou. Hoje o sistema financeiro é mais complexo e mais integrado. Cada vez mais, o que acontece num país tem reflexo imediato em outras economias. O estouro da bolha imobiliária americana, de 2008, provocou uma crise econômica com efeitos até os dias de hoje. Quanto às aplicações, as diferenças entre os países depende das taxas de juros, em alguns lugares se ganha mais, em outros menos. E o risco das aplicações também varia.

No Brasil, a caderneta de poupança é o investimento escolhido pela maioria da população, especialmente a de baixa renda. O principal atrativo é que a poupança conta com a garantia dos depósitos efetuados, por um fundo garantidor oferecido pelo próprio estado. O funcionamento desse fundo é razoavelmente simples: se o banco vier à falência, o estado garante o pagamento de até R$ 60 mil como reembolso. O economista e professor Robson Gonçalves, da Fundação Getúlio Vargas, elenca ainda um outro motivo pelo qual a poupança é o investimento número 1 dos brasileiros.

"Em alguns países a população tem um nível de instrução maior, mais anos de escolaridade, conhece melhor os mecanismos do sistema financeiro e compra diretamente títulos públicos. O Brasil tem alternativa do tesouro direto, por exemplo, que se assemelha a esse tipo de ativo financeiro muito comum nos países mais desenvolvidos) , só que a parcela da população brasileira que tem acesso a internet é muito restrita. A parcela da população brasileira que conhece o que é uma taxa de juros composta é mínima. Portanto, o tesouro direto não funciona no Brasil como funciona em outros países, como uma alternativa para a poupança das famílias de baixa renda ou para as pessoas de mais idade e para as pessoas de perfil muito conservador."

O professor Queilas Carvalho, da Faculdade de Economia da USP, explica que o fundo garantidor não é uma exclusividade da poupança brasileira. Segundo ele, nos Estados Unidos, por exemplo, a garantia pode chegar a US$ 100 mil por aplicação. Mas o economista lembra que essa garantia se refere à possibilidade da quebra de bancos e nada tem a ver com a perda de dinheiro por causa do risco da aplicação.

"Existe uma relação entre rentabilidade e risco. Se você deseja uma rentabilidade maior tem que correr mais risco. Você pode fazer isso, comprando títulos. Se você quiser hoje comprar um título grego, por exemplo, você vai ter uma taxa de juros muitas vezes superior àquela de um título triple A. Isso também leva a que muitos apliquem em bolsas de valores, em ações assumindo os riscos de uma eventual desvalorização da ação mas se beneficiando da eventualidade de uma valorização maior."

Numa crise financeira como a da Grécia, com a possibilidade de mudança da moeda do Euro voltando para o Dracma, os riscos são muito grandes para qualquer aplicação.

"Você tinha, digamos, 100 mil euros aplicados. Você vai receber 100 mil dracmas que em pouco tempo valerão o equivalente a 10 mil euros. Então, você terá perdido 90% do valor poupado e depositado."

Mas se o risco é uma característica inerente a qualquer aplicação financeira, a fixação de taxa por meio de leis é uma característica do sistema da caderneta de poupança existente no Brasil. Enquanto outros ativos financeiros têm seus rendimentos definidos pelo mercado, a poupança sempre foi regulamentada pelo governo.

Na avaliação do economista Roberto Piscitelli, professor de Economia da Universidade de Brasília, essa é uma garantia que torna a poupança brasileira diferente das aplicações existentes ao redor do mundo. Psitelli acredita também que essa garantia é a razão da confiança da população nessa modalidade de investimento e é o que permite ao governo alterar as regras sem abalar essa confiança.

"Pode ser até que se admita que em outros sistemas econômicos ou que em determinados países, o nível de solidez da economia ou a experiência histórica possa trazer para os investidores uma percepção de maior segurança para as suas aplicações. Então, eu acho que a poupança é algo sui generis; é alguma coisa muito brasileira e cujas características foram preservadas. Isso é o mais importante e daí decorre a análise que se possa fazer de uma mudança bem sucedida nessas regras."

TRILHA (Beth Carvalho - Saco de Feijão)

Além de fixar a taxa básica de juros da economia e regular o sistema bancário brasileiro, o Banco Central oferece serviços que podem ajudar diretamente a população. Por meio do site do Banco Central, as pessoas podem, por exemplo, registrar reclamações sobre serviços de má qualidade prestados pelos bancos e conseguir informações sobre as principais taxas da economia.

É por meio da Calculadora do Cidadão que a pessoa pode calcular, por exemplo, quanto vai subir o aluguel com base no IGPM, ou quanto vai pagar de juros se entrar no cheque especial. Para os poupadores, a calculadora também oferece serviços interessantes, como explica o chefe adjunto do Departamento Econômico do Banco Central, Fernando Antônio Caldas.

"Ela permite que você calcule o valor de um rendimento da poupança. Ele tem como entrar com um capital inicial que ele colocou para render na caderneta e escolher um período que ele deseja, por exemplo, 1 ano/2anos e ao final desse período, ele tem como saber o resultado daquele investimento."

Fernando Caldas explicou ainda que a Calculadora do Cidadão está preparada para operar com as novas regras de remuneração da poupança. O site do Banco Central pode ser acessado no endereço: www.bcb.gov.br.

TRILHA (Beth Carvalho - Saco de Feijão)

A poupança sofreu poucas alterações em suas regras ao longo de um século e meio de existência. Mas algumas delas são curiosas e merecem destaque. Em 1861 foi criada a Caixa Econômica da Corte, também conhecida como Caixa Econômica Federal e Monte de Socorro, para a guarda de recursos da população mais pobre. E se chamava caderneta porque as anotações de depósitos e saques eram feitas a mão em pequenos cadernos. Dez anos depois, os escravos foram autorizados a fazer depósitos, com autorização de seus senhores. Mas somente em 1915 as mulheres alcançaram o mesmo direito, desde que tivessem o consentimento dos maridos.

Em 1964, ano do golpe militar, foi instituída a correção monetária, que passou a compor o índice de correção das cadernetas de poupança, somada aos juros de 6 por cento ao ano. O objetivo era repor as perdas com a inflação, que tinha começado a subir na era JK.

Em 1991, a correção monetária saía de cena e era criada a TR, Taxa Referencial, que passou a ser somada aos juros para totalizar o rendimento da caderneta. A última mudança ocorreu neste ano. Uma medida provisória assinada pela Presidente Dilma Rousseff possibilitou a correção da caderneta de poupança com base na Taxa Selic, a taxa básica de juros da economia. Está nas mãos dos deputados e senadores propor alguma alteração na medida provisória.

Mas as mudanças não influenciaram no humor dos poupadores. A velha Caderneta, criada no tempo do Império, continua sendo a aplicação preferida do povo brasileiro.

De Brasília, Edson Junior