23/12/2011 00h00

Empreender e conviver: negócios e mercado de trabalho para pessoas com deficiência - Bloco 2

Na segunda reportagem, você vai conhecer o trabalho de uma cooperativa que reúne mães e pessoas com deficiência intelectual. Vai saber também que, aqui na Câmara, eles cuidam da conservação dos registros históricos da lei mais importante do País - a Constituição.

TEXTO

"Pode gravar, né? Pode. Então, como você começou a trabalhar aqui? Sete anos.... Cheguei, oito anos aqui, Maria Flor. Você conhece todo o trabalho? Tudinho. Eu corto, fico no fogão, eu pinto..."

Essa é Elisângela Alves. É uma jovem bonita de cabelos curtos e de óculos. Uma das mais antigas na cooperativa Maria Flor, ela nos assessorou durante a visita da reportagem, nos apresentando as pessoas e os equipamentos de trabalho. A sua fala diferente veio sempre acompanhada de um sorriso.

Maria Flor é a única cooperativa social da região Centro-Oeste. Nasceu há oito anos como iniciativa da Apae para os alunos e para as mães de jovens com síndrome de down.

Dentro do pequeno barracão, uma linha de montagem de flores foi montada. O trabalho final que se vê em cima das mesas são rosas, muitas rosas de cor lilás, que irão receber os bombons de uma festa de quinze anos.

Nas estantes, aparecem mais de 80 modelos de forminhas de flores para doces e bem casados, feitas em tecidos nobres. Deusdedit Carvalho está colando os cabinhos das folhas.

"Aqui tem que esperar secar um pouco assim... um pouco. Depois cola o cabinho na folha, aí cola, depois passa um tempo e desaparece a cola. Aí fica colado o cabinho na folha."

Cláudia Borges está fazendo a mesma coisa. Em um momento de sinceridade, deixa escapar que o mundo do trabalho tem as suas dificuldades para todos.

"Aí tem umas que têm cabinho e tem umas que é sem cabinho, que aí vai colocar o bombom aqui e que vai para as exposições. Aqui, eu faço de tudo um pouco porque a gente não pode fazer tudo o que gosta. Eu não gosto muito de colar cabinho..."

O lucro da Maria Flor é repartido igualmente entre os 20 cooperados. No entanto, nos últimos dois meses eles não conseguiram receber nada. As encomendas andam escassas e o aluguel da sala é alto. Marta Miranda lamenta a situação. Com o seu dinheiro economizado, ela já conseguiu comprar uma geladeira para a mãe.

"Eu estava trabalhando muito. Eu tô juntando o meu dinheiro, pouco em pouco, eu guardei dinheiro: aumentou mais, aí eu comprei geladeira para minha mãe. Minha mãe está feliz, aí ficou feliz. Minha mãe chorou e eu também fiquei feliz."

Deusdedit resume o desejo de todos os cooperados:

"Eu queria que tivesse mais coisa para a gente fazer."

Além de aprendizes que passaram pela Apae, algumas mães também integram a Maria Flor. Porém, pessoas da mesma família não podem trabalhar juntas na cooperativa.

Então são mães de filhos com deficiência que trabalham com os filhos de outras mães. Como Maria Messias, todas encaram a dificuldade e a falta de pagamento porque já experimentaram como a cooperativa pode ser gratificante.

"Eu moro em Sobradinho, em uma chácara na zona rural, da minha casa na BR são 4 km em estrada de terra, da BR em Sobradinho vai dar mais 2 km. Aí, chego em Sobradinho, eu pego um ônibus, ônibus de Planaltina vem lotado não tem como pegar, mas venho porque eu amo isso aqui."

Já Maura Carvalho reclama que os clientes nem sempre enxergam a cooperativa como um local que deve dar lucro aos seus cooperados.

"Às vezes as pessoas veem, acham bonitinho mas acham caro e aí vão atrás de coisas industriais. Porque o nosso trabalho é bonito, vai tudo para a pintura, tudo feito manual, os meninos têm a dificuldade deles mas fazem direitinho. Mas as pessoas não valorizam, eles acham porque é da Apae. Ah... Eu pensei que aqui dava era curso. Ah...Eu pensei que isso era barato. Não, aqui não é doação não. A gente trabalha para ganhar o da gente."

Linda dos Santos é a presidente da Maria Flor e disse que a cooperativa já esteve para fechar as portas. Nesse momento, eles estão negociando uma parceria para sair do aluguel e convidam os interessados para conhecer e participar da cooperativa.

"Eu conheci dez cooperativas que estão passando esse desafio de sobrevivência porque precisam, realmente, do suporte do governo. Hoje em dia para se trabalhar, se você não tiver parceiros, você não sobrevive, não. E é justamente isso, esses parceiros que a gente está buscando para poder fortalecer a cooperativa porque o nosso produto aqui tem qualidade. Temos compromisso, nunca aconteceu de chegar o dia da entrega da encomenda do cliente e não estar pronta. E, pelo tipo de pessoas que trabalham aqui, você vê o tanto que é gratificante de, realmente, valorizar eles. Em vez deles ficarem em casa ociosos, sem fazer nada, a gente fazer acontecer essa inclusão social. E não é só da boca para fora não."

Na Câmara, está em análise um projeto de lei (PL1784-2011) que pretende criar linhas de microcrédito para empreendimentos de pessoas com deficiência. Além disso, outra proposta prevê cotas para deficientes intelectuais no mercado de trabalho (PL 741-2011).

Um dos autores da proposta, o deputado Rogério Carvalho, do PT sergipano, lembra que incluir esse segmento no mundo do trabalho é um passo importante em direção à autonomia, que pode inclusive significar mais tranquilidade aos pais.

"Melhorando sua inserção no convívio social, dando mais segurança às famílias, porque terão a certeza de que, no desaparecimento dos pais e responsáveis, eles terão recursos para se manterem. Então, acho que com isso a gente dá uma contribuição importante para esse segmento."

Tranquilidade e satisfação de que hoje Linda dos Santos pode falar.

"Porque eu também sou mãe, aquilo que eu falei para você, tenho uma filha com deficiência intelectual e eu vejo como foi importante investir nela. Porque ela, hoje, está com 31 anos e ela com 29 anos foi para o mercado de trabalho. Ela trabalha na Câmara Federal em higienização de livros. E, eu vejo ela trabalhando e se sentindo fortalecida, amadurecida e sentindo importante de poder ver que trabalha, que no final do mês tem o salário dela. De fazer as coisas que, realmente, tem vontade de fazer. Como esse ano, ela realizou o sonho dela de ir para Disney."

A Câmara dos Deputados foi pioneira no projeto de empregar pessoas com deficiência intelectual para trabalhar com higienização de livros e documentos. Depois de serem treinados na Universidade de Brasília, oito pessoas conquistaram seu primeiro emprego. Michele dos Santos fala da viagem para a Disney.

"Foi com o meu dinheiro, eu tirei o passaporte e o visto. Foi muito bom, fui com a minha tia e com o meu primo. O que você mais gostou na Disney? Ah... Eu gostei de tudo!"

Michele trabalha ao lado de Ana Célia Ribeiro e Paulo Watanabe. Quando chegamos, eles estavam com máscaras e luvas. Muito atentos, usavam uma espécie de pincel para tirar a poeira dos documentos. Perguntamos o que eles gostam de fazer depois do trabalho.

"Além de trabalhar, fazer novas amizades e conversar muito. Eu gosto de comprar as coisas: roupa, sapato, perfume. Embelezar!"

Junto a outras pessoas que integram essa equipe na biblioteca da Câmara, Michele, Ana Célia e Paulo estão trabalhando agora nos registros históricos da Constituição de 88.

Em suas mãos, a lei mais importante do país, que ficou conhecida como Constituição Cidadã. Em suas mãos, a cidadania sai do papel e se firma na realidade.

Reportagem Daniele Lessa Soares