10/03/2015 21h04

Barusco diz que corrupção na Petrobras foi institucionalizada a partir de 2004

Delator na Operação Lava Jato se recusou a responder sobre propinas recebidas por ele antes de 2004.

Durante quase cinco horas de depoimento na Câmara, o ex-gerente de Tecnologia da Petrobras Pedro Barusco detalhou como recebeu 70 milhões de dólares em propinas entre 1997 e 2013, dinheiro que totalizou 97 milhões de dólares, com os rendimentos, em contas no exterior. Ele foi o primeiro convocado pela CPI da Petrobras e acusou o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, de ter recebido algo entre 150 e 200 milhões de dólares em propinas em nome do partido a partir de 2004. A propina teria sido paga por empresas contratadas pela Petrobras.

Ele disse que esse total é uma estimativa e que ele não tem provas de que Vaccari recebeu a quantia ou que o dinheiro foi efetivamente pago ao PT. Mas ele explicou detalhes de sua atuação na Petrobras, principalmente quando trabalhava para a diretoria de Serviços, ocupada na época pelo ex-diretor Renato Duque.

Segundo ele, a propina paga pelas empresas contratadas pela Petrobras era dividida da seguinte maneira: metade ia para ele e Renato Duque e a outra metade ia para Vaccari, que operava em nome do PT.

"Os encontros com o Vaccari, via de regra, eram nos hotéis. Eu não sei quem deu procuração para o Vaccari atuar nas empreiteiras, mas o fato é que ele atuava. Eu sei que os empresários todos conheciam ele. Eu não conheço outro operador do PT a não ser João Vaccari"

No depoimento que prestou à CPI da Petrobras, Barusco confirmou o que já havia dito à Justiça no processo de delação premiada da Operação Lava Jato. Mas ele não quis detalhar o esquema de recebimento de propina anterior a 2004, o que irritou os deputados do PT, que queriam saber se o esquema já funcionava antes do governo Lula.

Ao final do depoimento, a deputada Maria do Rosário, do PT do Rio Grande do Sul, disse que as afirmações de Barusco eram inconsistentes.

"Eu percebi as acusações mais dentro do plenário, por parte dos representantes dos demais partidos, que no próprio depoimento do senhor Pedro Barusco, porque toda vez que ele se refere ao tesoureiro do PT ele não diz ao certo se ele viu, se ele participou ou se ele repassou algum dinheiro ao tesoureiro do PT"

A oposição considerou o teor do depoimento de Barusco grave. Além da afirmação de que o tesoureiro do PT recebeu propinas, o ex-gerente da Petrobras disse os nomes de outras pessoas envolvidas no esquema. Disse ainda que havia um cartel de empresas contratadas pela Petrobras e falou da participação de bancos que abriam contas no exterior para o recebimento do dinheiro proveniente de propina. O deputado Izalci, do PSDB do Distrito Federal, resumiu a posição do partido.

"Mas o mais importante do depoimento é que ficou muito claro que a institucionalização da quadrilha que assaltou a Petrobras foi constituída a partir de 2003, a partir do governo Lula"

Mas o relator da comissão, deputado Luiz Sérgio, do PT do Rio de Janeiro, disse que Barusco não apresentou novidades à comissão.

"A meu ver, o depoimento do Barusco não trouxe nenhum fato além daquilo que nós tivemos acesso na delação que circulou na imprensa e nas redes sociais"

Nesta quinta-feira, a CPI vai ouvir os depoimentos do presidente da Câmara dos Deputados, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do ex-presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielle. Cunha se ofereceu para comparecer à Comissão espontaneamente depois que o nome dele surgiu entre as pessoas sobre as quais foram abertos inquéritos no Supremo Tribunal Federal na última sexta-feira. Ele nega qualquer envolvimento nos fatos apurados pela chamada Operação Lava Jato, da Polícia Federal.

Reportagem — Antonio Vital