28/05/2019 - 18h26

Pobreza e baixo índice de vacinação são apontados como causas da tuberculose infantil

Deputado defende que o programa Saúde da Família faça busca ativa nas residências para fazer o diagnóstico precoce da doença. 71% dos casos suspeitos são de menores de 14 anos

Jailson Sam/Câmara dos Deputados
Audiência pública sobre a situação da tuberculose em crianças no Brasil
Deputados e especialistas debateram o aumento nos casos de tuberculose infantil no Brasil nos últimos anos

Foi há apenas 20 anos que se começou a dar mais importância à tuberculose entre as crianças. Antes, o foco era apenas nos adultos. Na audiência pública da Comissão de Seguridade Social que tratou do assunto, especialistas relataram os problemas para detectar e tratar a doença. 71% dos casos suspeitos não confirmados são de pessoas com menos de 14 anos. Denise Arakaki, coordenadora do Programa Nacional de Controle da Tuberculose, ressaltou as dificuldades nesta faixa etária.

“A criança manda sinais de que está com tuberculose e que poderiam servir para qualquer outra doença. É a criança que está comendo mal, é a criança que não está ganhando peso, é aquela criança irritadiça, é aquela criança indisposta e que às vezes até a família demora para perceber que aquela criança tem alguma coisa errada, principalmente num ambiente onde os pais têm várias crianças e não conseguem sequer olhar individualmente para cada uma delas”, observou Denise Arakaki.

Além da representante do Ministério da Saúde, outros debatedores enfatizaram a conexão entre a incidência da tuberculose e as condições socioeconômicas da população. Márcia Leão, advogada da Parceria Brasileira Contra a Tuberculose, lamentou a falta de políticas públicas específicas, para que se aborde a doença para além dos determinantes biomédicos. Ela diz que a pobreza afeta até a adesão aos medicamentos.

“É muito difícil não ter comida, não ter moradia, não ter dinheiro para o transporte e ainda por cima ver o seu familiar, o seu amigo, o seu sobrinho, o seu neto chorando, dizendo que não quer tomar o tratamento”, disse. 

Busca ativa
Clemax Santana, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), listou os desafios para o combate da tuberculose entre as crianças: novos medicamentos e testes diagnósticos, capacitação de pessoal, estudos genéticos e novas vacinas. Para o deputado Chico d´Angelo (PDT-RJ), da Comissão de Seguridade Social, é preciso que as suspeitas da doença nas faixas etárias mais jovens sejam investigadas com mais rigor.

“É muito importante que, nestes casos, o Saúde da Família faça a busca ativa na casa, para pesquisar na criança em que a residência tem um adulto com tuberculose, para que se chegue a um diagnóstico mais precoce da doença”, observou o parlamentar.

Vacinação em baixa
Denise Arakaki, do Ministério da Saúde, informou que, desde 2016, está diminuindo a cobertura vacinal da BCG, que previne contra a tuberculose. O índice recomendado é de 95% do público-alvo, mas os números repassados pelos estados variam de 95% a 60%, que é o caso da Bahia. A coordenadora do Programa Nacional de Controle da Tuberculose disse que, apesar dos riscos da doença, há um movimento global contra a vacinação de crianças, o que pode ter afetado a cobertura vacinal da BCG no país.

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Reportagem - Cláudio Ferreira
Edição – Roberto Seabra

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Comentários

Rosângela Barbosa Gomes | 29/05/2019 - 12h03
Além da pobreza e do baixo índice de vacinação, a questão da escolaridade precária é um dos fatores que estão ligados à tuberculose infanto-juvenil. Uma pessoa pobre não necessariamente terá casos de tuberculose em sua casa ou deixará de vacinar suas crianças, mas se combinado à estes dois fatores houver a baixa escolaridade, com todas as suas implicações, certamente ocorrerão casos de tuberculose infanto-juvenil. Melhorar a qualidade do ensino/aprendizagem e o conteúdo das aulas, ampliar o saneamento básico que é praticamente inexistente nas periferias das cidades também são importantes.