27/09/2013 - 21h26

Ex-secretário lembra bastidores da atuação de Ulysses

Oswaldo Manicardi era tão próximo do dr. Ulysses que intermediou o pedido de d. Mora em casamento.

Arquivo Pessoal
Constituinte - Oswaldo Manicardi e Ulysses Guimarães
Manicardi (E) caminha com Ulysses Guimarães.

Durante 44 anos, Oswaldo Manicardi foi secretário de Ulysses Guimarães. Acompanhou-o por onze mandatos parlamentares, estava a seu lado quando era aclamado nos comícios pelas Diretas-Já, acompanhou sua dupla eleição para presidente da Assembleia Nacional Constituinte e da Câmara dos Deputados, presenciou a reunião na qual se discutiu, madrugada adentro, quem assumiria a Presidência após a morte de Tancredo Neves e por pouco não embarcou no helicóptero junto com ele e a esposa, dona Mora, naquele fatídico 12 de outubro de 1992.

Oswaldo Manicardi, 85 anos e com uma memória primorosa, contou em entrevista à TV Câmara detalhes da vida pessoal de Ulysses Guimarães e lembrou aspectos pouco conhecidos da carreira do político mais importante do País em sua fase de redemocratização – como o episódio em que precisavam decidir quem assumiria a Presidência com a doença e posterior morte de Tancredo Neves. Manicardi afirmou que os militares não queriam que Sarney assumisse a vaga. “Diziam que Ulysses é quem deveria assumir, pois era presidente da Câmara. Mas Ulysses não quis, porque ele queria ser eleito pelo povo. Ao mesmo tempo, ele não podia dizer que não seria ele, pois isso poderia gerar uma crise”, contou.

Segundo Manicardi, Ulysses não se cansava de alertar para o perigo de uma divisão nas forças democráticas. “Ele dizia: ‘Os militares estão no poder. Eles não precisam fazer nada para continuar, não precisam eleger ninguém.’ Foi quando o senador Afonso Arinos foi para a televisão dizer que o Sarney não era vice do Tancredo, mas vice do Brasil”, relatou. Ulysses aproveitou o argumento e bateu o martelo. “Não vamos polemizar. O presidente será o Sarney. Vamos lutar para ser ele.” Segundo Manicardi, foi um momento de muita tensão, pois Ulysses temia a continuidade da ditadura.

Reinaldo Stavale
10 Promulgação da ANC
Ulysses durante a sessão de promulgação da Constituição de 88.

A Constituição
Outro episódio lembrado por Manicardi foi o esforço de Ulysses para acumular as presidências da Câmara e da Constituinte, sob pena de ver naufragado o sonho de aprovar uma nova Constituição apenas três anos após o fim do regime militar. “O Ulysses precisava do Plenário o tempo todo, pois a Constituinte funcionou dia e noite. Felizmente deu certo de ele ser eleito, em primeiro lugar, presidente da Assembleia, e logo em seguida presidente da Câmara. Isso ficou uma coisa harmoniosa, senão ia ter problema”, contou.

Promulgada a nova Constituição em 5 de outubro de 1988, Ulysses era o político mais influente e popular do País. Mas isso não foi suficiente para que conseguisse se eleger presidente da República na primeira eleição direta, ocorrida no ano seguinte. Segundo Manicardi, seu partido, o PMDB, estava dividido. “Eram 12 governadores. Não havia unanimidade, pois cada um tinha seus interesses. Por isso indicaram Ulysses, que foi o mais votado na convenção, mas ele não queria ser”. O resultado, disse Manicardi, é que a campanha eleitoral foi horrível. “Os líderes de cada estado faziam um belo comício, mas depois não buscavam votos para o dr. Ulysses. Ele não teve o apoio do partido”, resumiu.

Casamento
Manicardi foi tão próximo de Ulysses que, quando perguntado sobre sua formação, ele não titubeia na resposta: “Conviver com o dr. Ulysses foi uma escola política, uma escola de convivência com as pessoas. Trabalhei com ele 44 anos. Essa foi a minha formação”. Formado em Direito, ele deixou a advocacia para trabalhar com Ulysses.

Sefot
Constituinte - Oswaldo Manicardi
Manicardi revisita o Congresso para conceder a entrevista à TV Câmara.

Essa proximidade gerou histórias engraçadas. Como no dia em que Ulysses pediu a Oswaldo que ele sondasse dona Mora sobre um possível casamento. “Com eu trabalhava em cartório, ele me perguntou como era esse negócio de casamento e me pediu que eu conseguisse com ela os documentos para a cerimônia. Fui até a casa dela e quando cheguei lá descobri que ele não a havia pedido em casamento! Ela chorou, disse que estava viúva havia pouco tempo, com dois filhos e que não pensava em se casar de novo. Eu disse: pois a senhora se prepare que ele quer casar e vai lutar por isso.” Dias depois foi o próprio Manicardi quem oficializou a união de Ulysses e Mora, que continuaram juntos até a morte.

Oswaldo Manicardi se emociona quando lembra o 12 de outubro de 1992, quando o helicóptero em que viajavam Ulysses e Dona Mora, além do ex-senador Severo Gomes e a esposa, caiu no mar, matando os quatro passageiros e o piloto. O corpo de Ulysses foi o único que não foi encontrado. Essa lembrança traz outra, a de que Manicardi foi salvo da morte por Ulysses. Ele já estava sentado dentro do helicóptero, quando o chefe o dispensou. “Me disse: fique aí Oswaldo, vá passear, namorar. Somos apenas casais. Desci do helicóptero e eles seguiram. O Dr. Ulysses salvou a minha vida”, finalizou.

Reportagem - Beto Seabra
Edição - Natalia Doederlein

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