28/10/2005 - 03h25

Contradições marcam acareação entre acusados do ‘mensalão’

Contradições sobre o valor dos recursos repassados aos partidos da base aliada do governo acusados de envolvimento no suposto esquema do “mensalão” e versões divergentes quanto à forma como eram feitos os repasses marcaram a acareação promovida nesta quinta-feira pela CPMI da Compra de Votos. Ao final dos depoimentos, o relator da comissão, deputado Ibrahim Abi-Ackel (PP-MG), destacou que a diferença do valor dos recursos informados pelas fontes pagadoras e o dos recebedores ultrapassou R$10 milhões.
Mesmo assim, na avaliação do relator, a acareação era necessária para confrontar as versões de cada um dos envolvidos e qualificar os crimes de obstrução à Justiça cometidos por quem mentiu à CPMI. Entretanto, Abi-Ackel ressaltou o cuidado que os parlamentares precisam ter na avaliação dos dados. Segundo ele, a lista de sacadores fornecida por Marcos Valério, apontado como o operador do “mensalão”, tornou-se uma "fonte exclusiva de punição", pois as acusações levadas à CPMI estão baseadas apenas nas informações contidas no documento.

Confirmação da lista
A acareação reuniu de um lado o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e a diretora financeira da SMPB, Simone Vasconcelos. Do outro lado, o presidente do PL, ex-deputado Valdemar Costa Neto; o ex-tesoureiro do PL Jacinto Lamas; o primeiro-secretário do PTB, Emerson Palmieri; o assessor do PP João Cláudio Genu; e o ex-presidente da Casa da Moeda Manoel Severino dos Santos.
Durante a acareação, Valério reiterou diversas vezes que a lista apresentada por ele "corresponde à verdade". Os dados sobre os valores, datas e destinatários dos saques e depósitos nas contas da corretora Bonus-Banval foram confirmados também por Delúbio Soares e por Simone Vasconcelos.

Impeachment
O deputado Moroni Torgan (PFL-CE) chamou a atenção para o fato de que três depoentes – Marcos Valério, Simone Vasconcellos e Delúbio Soares - confirmaram novamente a existência de caixa dois na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República em 2002 e concluiu ser necessário "pelo menos" instaurar um processo contra o presidente para apurar responsabilidades e para dar a Lula a oportunidade de se defender. "Se fosse com algum deputado, já haveria uma representação no Conselho de Ética", argumentou, avaliando que as mesmas regras devem valer também para o presidente da República.

”Semanão”
O deputado Júlio Redecker (PSDB-RS) contestou a afirmação de Valdemar Costa Neto de que não houve "mensalão" pela falta de periodicidade mensal nos repasses de recursos de Marcos Valério. Redecker apresentou levantamento feito com base na quebra de sigilo bancário da empresa Guaranhuns – utilizada no esquema de distribuição de recursos -, mostrando que os repasses somavam R$ 500 mil por semana nos primeiros meses, em 2003; e, em 2004, passaram para R$ 300 mil semanais. Esses depósitos, segundo o deputado, cobrem um período de 18 meses. “Esses dados apontam que pode ter acontecido, na realidade, um ‘semanão’", disse.

Fatos novos
Para o presidente da CPMI, senador Amir Lando (PMDB-RO), a acareação gerou fatos novos. "Nós temos uma quebra de sigilo, por exemplo da Guaranhuns, que apresenta uma movimentação expressiva, inclusive uma regularidade no fornecimento de recursos. Isso mostra aquela idéia de que esses recursos não eram para pagar campanhas pretéritas. Eram, sobretudo, para ser distribuídos no futuro, e não para trás."

Da Reportagem
Edição - Regina Céli Assumpção


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