Operários em greve

O Globo

Operários em greve desafiaram perseguição 

José Casado


Fábricas organizaram departamentos de segurança e ficharam funcionários, mas não evitaram movimento

 

Nos arquivos da polícia política há uma profusão de registros e listas de empregados remetidos por empresas privadas, com dados para identificação individual. As fichas serviam a todos os órgãos de segurança. Com freqüência, davam origem a inquéritos no Departamento de Ordem e Política Social (Dops) — e, claro, a detenções.

Desde meados dos anos 60 as grandes indústrias se preocuparam em estruturar departamentos de segurança. Uma das que mais investiram foi a Volkswagen, cujos pátios reuniam cerca de 30 mil funcionários. Entre os especialistas que contribuíram na montagem do "serviço" da Volks estava o alemão Franz Paul Stangl. Fugitivo nazista, fora privilegiado por Hitler com o comando de dois dos principais campos de extermínio do III Reich na Polônia, Sobibor e Treblinka. Descoberto e preso, foi extraditado em 1967.

Vokswagen era alvo óbvio da esquerda

Quando Stangl morreu, quatro anos depois na Alemanha, a divisão de segurança da Volks já abrigava quatro dezenas de funcionários, em parte recrutados na polícia e nas Forças Armadas. Em 1969 um dos chefes era Adhemar Rudge, coronel do Exército e engenheiro com domínio do idioma alemão.

— Nunca houve terroristas nas fábricas — conta. — Nos preveníamos, eventualmente com alguma troca de informações com o Dops.

Ele nega participação no "Grupo de Trabalho" das empresas com a polícia política, apesar dos registros na documentação do Dops:

— Nunca houve grupo, nem reunião, nada. Só tratávamos da segurança do patrimônio.

A Volks alega que Rudge não tinha autonomia para representá-la em fóruns externos.

Líder na produção de carros, a Volks era alvo óbvio e preferencial da esquerda. Entre 1970 e 1971, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) traçou um "Plano de Construção (de bases) nas Empresas". O jornal comunista "Voz Operária" exaltou o sucesso do plano "na maior empresa privada". Não deu o nome, mas a nota levou a uma ação combinada empresa-polícia política.

— Foi a Operação Escaninho: vigilância sobre todo metalúrgico que tivesse material suspeito nos escaninhos. Em seguida veio a grande redada de prisões — conta o historiador João Guilherme Vargas Neto.

Na época prenderam o operário Antonio Guerra com um "Jornal da Volkswagen" em que se lia: "Há elementos do Dops e do SNI em diversas seções (...). Já fizeram prisões dentro da própria empresa. Outras vezes, enrolam o trabalhador e o levam para fora da fábrica, onde o espera o Dops ou a Oban (Operação Bandeirantes)."

Na vizinha Saab-Scania, em São Bernardo, a conexão com os órgãos de repressão foi aperfeiçoada na greve de 1978, a primeira no país depois de nove anos, da qual emergiu Lula e o chamado "novo sindicalismo".

A greve foi articulada na ferramentaria sob a liderança do operário Gilson Luiz Correia de Menezes, diretor de base do sindicato. Na véspera ele avisou Lula, que não acreditou:

— Falei com Lula que a Scania ia parar no outro dia. E ele deu uma risadinha assim e tal. Tudo bem. Apoiou mas não acreditou muito. Eu insisti: ‘Olha, a Scania vai parar amanhã’... Só sei que passei a noite sem dormir, tremendo, porque não sabia o desfecho daquilo. Pensei mesmo, nunca vou ver essa coisa de liberdade.

Reação natural de quem vivia o rigor da vigilância interna. Menezes e outros eram seguidos dentro da fábrica:

— O chefe da segurança chegou a colocar um guarda para me vigiar. Até ao banheiro ele ia. Todos nós, na Scania, na Mercedes e na Ford, éramos vigiados na fábrica. O tempo todo.

Barulho de máquina somente em quatro áreas

Alguns metalúrgicos recordam que os chefes de seção riam, incrédulos com a possibilidade de uma greve.

Na manhã de terça-feira 12 de maio de 1978, as máquinas da ferramentaria da Scania não foram ligadas. As outras seções do pavilhão A seguiram o exemplo. Somente em quatro áreas ouviu-se barulho de máquina.

— Foi indo, as pessoas se juntando no pátio e parou a fábrica toda — conta Menezes. — Ali pelas 8h15min pedi que alguém fosse a um orelhão e avisasse ao pessoal do sindicato. Eles estavam reunidos, saíram correndo para a fábrica. Por volta das 9h30min apareceu um representante da Secretaria do Trabalho, Guaraci Horta (mais tarde interventor no sindicato dos metalúrgicos). Estava com um agente do Dops. Ameaçaram e tal, mas o pessoal começou a gritar e eles correram.

Empresas e governo foram surpreendidos, recorda Nildo Masini, representante do setor de trefilação de aço na diretoria da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

— A gente tinha a sensação do descontentamento, que não era de natureza política mas salarial. Na Fiesp recebíamos informação de dentro das fábricas, que o pessoal das indústrias trazia. Mas ninguém sabia mesmo o que e quando ia acontecer. Depois de 14 anos sem negociação direta, tivemos que correr para montar um mapa das reivindicações e concessões feitas aos trabalhadores.

Depois da Scania, vieram todas. Num país que atravessara uma década sem notícia de greves, com vigilância nas linhas de produção e camburões da polícia nos portões das fábricas, o cenário foi revolucionado: em 45 dias protocolaram-se 166 acordos sindicais, com aumento real de salários para quase 280 mil trabalhadores.

Gilson Menezes e 222 grevistas foram demitidos. A Scania mandou dois representantes ao Dops para entregar as fichas funcionais. Não existe uma contabilidade sobre vítimas funcionais e policiais desse período. Mas a vida nas empresas do ABC paulista mudou a de 1978.

Colaborou Soraya Aggege, de São Paulo

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