09.06.2008
Jornal "Folha de S. Paulo"
Caderno: Mundo
Ruralistas argentinos racham sobre locaute
Produtores agrícolas resistem ao chamado de dirigentes para encerrar protesto contra governo Cristina
ADRIANA KÜCHLER
Às vésperas do fim do terceiro locaute agropecuário na Argentina, programado para hoje, representantes de base do setor anunciaram ontem que não acatariam a decisão dos dirigentes ruralistas e continuariam a paralisação. A decisão foi comunicada pelo vice-presidente da Federação Agrária de Entre Ríos, Juan Echevarría, que disse que as bases sentem que lhes estão "tirando sarro permanentemente". Outros grupos de produtores também se opunham a terminar o locaute diante da falta de sinal de diálogo com o governo. À noite, aconteceriam várias assembléias para decidir se o locaute continuaria ou não.
O locaute ruralista começou há 90 dias como reação ao aumento de impostos sobre as exportações de grãos. Depois de embates, queda na popularidade do governo e fracasso nas negociações, a Casa Rosada reduziu o teto das alíquotas, mas não convenceu os produtores.
Nesta nova fase dos protestos, os produtores impedem a venda de grãos para exportação, o que gerou conflito com transportadores do produto.
Há uma reunião marcada para hoje, quando os ruralistas tentarão voltar a negociar com o governo.
Jornal "Valor Econômico"
Caderno: Brasil
Difícil caminho para acordos comerciais
Sérgio Léo
Em contraste com a ativa participação do Brasil nas discussões para a liberalização comercial entre os países sócios da Organização Mundial do Comércio (OMC), a Argentina tem se mantido de lado, reticente, avessa a qualquer tipo de concessão que represente uma maior abertura de seu mercado para produtos industrializados. Pode ser uma estratégia de negociação, já que o Brasil, sócio do país no Mercosul, tem tomado a frente nas negociações, e defendido pontos de vista que atendem a interesses argentinos; mas pode indicar também uma visão sobre acordos comerciais que dificultará futuras negociações multilaterais do bloco do Cone Sul.
No Brasil, o setor privado passou a demonstrar, como nunca, disposição para enfrentar a concorrência externa, ou, pelo menos, para fazer maiores concessões e explorar alternativas dentro dos limites estabelecidos em Genebra. Como a política de tarifas de importação é comum para os sócios do Mercosul, os empresários se preocupam em saber que atitude tomarão os argentinos, com quem, afinal, os brasileiros terão de se entender para estabelecer qualquer política de derrubada da barreiras tarifárias para terceiros países.
Nesta semana, funcionários de alto escalão dos países membros da OMC se reúnem para mais uma tentativa de salvar a chamada rodada Doha, de liberalização comercial, na OMC. Os relatos feitos pelo Itamaraty ao setor privado mostram que os argentinos não estão engajados na negociação. Há expectativa de que, na reta final das negociações, a Argentina possa flexibilizar suas posições, caso se encontre o difícil caminho para um acordo - algo que os governos insistem ainda ser possível, embora pareça cada vez mais improvável.
Jornal "O Estado de S. Paulo"
Caderno: Economia & Negócios
Cristina completa 6 meses no poder com sinais de crise
Inflação em alta e falta de energia já inibem o consumo dos argentinos, após cinco anos de recuperação
Ariel Palacios, Buenos Aires
O entusiasmo dos argentinos com a recuperação da economia começa a murchar. Nos últimos cinco anos, o país se recuperou da crise de 2001-2002, com crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB) de 9% em média. Mas, agora, a expectativa de uma nova crise está inibindo o consumo na Argentina. Os lojistas vêem a clientela passar pela frente das vitrines, mas são poucos os que entram. A inflação, velho fantasma dos argentinos, disparou.
E os sinais de uma nova crise energética surgiram com intensidade nos últimos dias. Nesse cenário, a presidente Cristina Kirchner, que amanhã completa seis meses no poder, tem pouco para celebrar. Desde que tomou posse esteve mergulhada em uma seqüência de crises. Há três meses enfrenta um conflito com os ruralistas, o primeiro setor que desafiou o poder de Cristina e de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner. Apesar da gravidade da situação, segundo levantamento feito pelo jornal Perfil, a presidente ocupou 15% de sua agenda de trabalho com reuniões com celebridades: cantores, músicos e atores, entre eles o espanhol Antonio Banderas.
A briga com os ruralistas levantou suspeitas nos argentinos sobre a capacidade da presidente em lidar com crises. A popularidade de Cristina, que, de acordo com a consultoria Poliarquia, era de 56% em janeiro, atualmente é de 26%. Segundo pesquisa feita pela TNS Gallup e pela Universidade Católica Argentina (UCA), seis de cada dez argentinos afirmam que, com seus salários, é impossível chegar ao fim do mês. Em setembro passado, quatro da cada dez reclamavam da renda mensal.
As perspectivas para o futuro são crescentemente negativas. O Índice de Expectativas Econômicas que a UCA elabora mensalmente mostra queda de 7,4% nas expectativas positivas ante abril do ano passado. Simultaneamente, a confiança no governo despenca.