03.09.2008

Jornal "Folha de S. Paulo"

Caderno: Mundo

Região apóia Lugo após denúncia de golpe

Reunião na casa de Lino Oviedo, com participação de ex-presidente Nicanor Duarte, é confirmada por general da ativa

Brasil, Argentina, Colômbia, Chile e OEA manifestam apoio; ex-presidente diz que mandatário foi enganado por gente do seu entorno

Países da América do Sul, entre eles o Brasil, divulgaram ontem notas de apoio ao presidente paraguaio, Fernando Lugo, que na véspera denunciou uma articulação golpista contra o seu governo. Em Assunção, o general Máximo Díaz Cáceres, oficial de ligação entre as Forças Armadas e o Congresso, confirmou ter sido chamado a reunião na casa do general da reserva Lino Oviedo, com a participação do ex-presidente Nicanor Duarte Frutos.

Na segunda-feira, Lugo foi a público denunciar a suposta articulação golpista de Oviedo e Nicanor em reunião no domingo à noite e atribuiu a Díaz a versão. O general corroborou o relato do presidente e disse que, indagado sobre o sentimento das Forças Armadas em relação à atual crise no Senado, se recusou a opinar e comunicou o episódio à cúpula militar.

O impasse no Senado paraguaio teve início no último dia 26, quando Nicanor prestou juramento como senador eleito pelo Partido Colorado. Mas a base governista anulou a sua posse alegando que, como presidente, ele não poderia ter concorrido. No Paraguai, ex-presidentes tornam-se senadores vitalícios, com direito a voz, mas não a voto nem a salário.

O Itamaraty, em geral comedido ao respaldar denúncias do tipo, divulgou nota de "apoio à institucionalidade democrática" no país, em que diz confiar em que "a legitimidade democrática será mantida" e reafirma o apoio a Lugo, "legitimamente eleito pelo povo paraguaio". Em conjunto, os governos do Mercosul, o qual o Paraguai integra, disseram que "a integração regional é inseparável do respeito à democracia".

Em entrevista no Rio, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, disse que se preocupa com a situação, mas não acredita em "nenhuma aventura, inclusive porque já passou a era das aventuras golpistas" na região. Os governos da Argentina, do Chile e da Colômbia divulgaram notas em tom similar.

O secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), José Miguel Insulza, expressou "profunda preocupação" e disse que toda a região apóia Lugo.

Os embaixadores no Paraguai de Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru e Uruguai foram convocados pelo chanceler Alejandro Hamed Franco para receber detalhes da denúncia e expressaram apoio "ao presidente Lugo e ao processo democrático". Hamed deverá ser recebido por Amorim, no Brasil, depois de amanhã.

 

 

Jornal do Senado

Caderno: Mercosul

Parlasul debate respeito aos direitos humanos no Brasil

O respeito aos direitos humanos no Brasil será tema de audiência pública da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos do Parlamento do Mercosul, marcada para as 9h de amanhã, com a presença do presidente do Parlasul, deputado Dr. Rosinha (PT-PR).

Segundo o protocolo constitutivo do Parlasul, a entidade deve elaborar e publicar anualmente um relatório sobre a situação dos direitos humanos nos países membros, "levando em conta os princípios e as normas do Mercosul".

A audiência será aberta pela presidente da comissão, a parlamentar uruguaia Adriana Peña. Foram convidados representantes da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado; da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados; da Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República; e do Departamento de Direitos Humanos e Temas Sociais do Ministério das Relações Exteriores. À tarde, a audiência deve contar com representantes do Fórum Nacional de Entidades de Direitos Humanos; do Movimento Nacional de Direitos Humanos; e do Comitê de Políticas Externas de Direitos Humanos.

 

 

Jornal "Valor Econômico"

Caderno: Brasil

Argentina obtém US$ 200 milhões do BNDES para financiar bens de capital

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, anunciou ontem que assinará um acordo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que permitirá ao banco brasileiro abrir créditos de US$ 200 milhões para financiamento de compra de bens de capital argentinos por empresas brasileiras. O acordo deverá ser assinado na segunda-feira, durante visita oficial que Cristina fará ao Brasil para se reunir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Haverá US$ 200 milhões para ajudar os produtores com vendas no Brasil e no mundo. Haverá o financiamento de bens de capital e mercadorias argentinas", o que "vai ajudar a inserir nossos produtores no mundo", destacou a presidente argentina. Em um ato na sede do governo por ocasião do Dia da Indústria, a chefe de Estado também antecipou que trabalha em uma normativa para exigir a compra de equipamentos argentinos "para ter acesso aos créditos" dos bancos públicos.

"No Brasil é assim, exceto quando esses equipamentos não são produzidos no país", explicou a presidente durante discurso transmitido pelo rádio e televisão. "Queremos um acordo com a indústria local para garantir que haja preço, qualidade e tempo de entrega (...) e porque acreditamos na necessidade de articular acordos proveitosos para todos."

Ela ressaltou que protegerá a indústria argentina desde que os empresários "garantam" que sua produção terá "qualidade e eficiência nos prazos de entrega". No dia 4 de agosto, os diretores das maiores associações patronais de Argentina e Brasil destacaram as boas possibilidades de negócios conjuntos através de créditos do BNDES, durante uma reunião empresarial realizada em Buenos Aires, por ocasião de uma visita do presidente Lula à Argentina.

 

 

Jornal "Valor Econômico"

Caderno: Agronegócios

Gado e lavouras da Argentina sofrem com seca histórica

Os problemas de abastecimento de alimentos na Argentina, causados pelos protestos de produtores nos últimos meses, têm sido agravados pela seca inclemente que afeta regiões produtoras do país, segundo a imprensa argentina. A falta de chuvas atinge principalmente a área localizada ao norte da província de Buenos Aires, Santa Fé, Córdoba, Chaco, La Pampa e Santiago del Estero, justamente o coração da produção agrícola argentina.

Esta já é considerada a pior seca dos últimos 20 anos na Argentina. Cálculos ainda não definitivos do governo e de entidades privadas afirmam que as perdas acumuladas são, até o momento, de US$ 500 milhões. A falta de chuvas tem atrasado a colheita de trigo e girassol, dois dos principais produtos agrícolas do país, e já matou cerca de 700 mil bovinos. Os serviços de meteorologia prevêem que não haverá chuvas relevantes nos próximos 40 a 50 dias.

Nas regiões mais afetadas da província do Chaco, por exemplo, o governo montou sistemas de distribuição de 700 litros de água potável por semana, que chegam a cerca de 300 mil pessoas. O trabalho é dificultado pelas más condições de conservação da infra-estrutura de transportes, segundo informou a edição de ontem do jornal "Página 12". Em regiões de Santa Fé e do Chaco, a falta d'água tem forçado alguns produtores ao escambo, segundo informou ontem o diário "Clarín": pecuaristas trocam carne e cabeças de gado vivo por água e pasto. Com isso, conseguem água para oferecer aos animais e evitam que mais bois morram de sede nas propriedades.

O círculo de perdas torna-se vicioso. A queda da qualidade e a pressa para vender os animais derrubam o preço do gado. Com o abate e a morte das vacas, teme-se também pela redução do rebanho de bezerros e da oferta futura de leite no país.

 

 

Jornal "O Estado de S. Paulo"

Caderno: Internacional

Itamaraty diz-se ''preocupado'' com denúncia feita por Lugo

Presidente paraguaio acusou adversários de tramar golpe contra ele

Denise Chrispim Marin

O governo brasileiro registrou ontem sua "preocupação" com as "graves denúncias" de que estaria em curso um complô contra o novo governo paraguaio. Na segunda-feira, o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, acusou seu antecessor, Nicanor Duarte, de estar envolvido num suposto plano de golpe. Em nota divulgada pelo Itamaraty, o governo brasileiro apoiou Lugo, dando a entender que não tolerará um movimento golpista no país vizinho. "O governo brasileiro confia que a institucionalidade democrática será plenamente mantida no país e reafirma seu apoio ao presidente Lugo, legitimamente eleito pelo povo paraguaio", diz a nota.

Em uma entrevista no Rio, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, disse ter convicção de que "a era das aventuras golpistas" já passou na América Latina, mas fez a ressalva: "Temos uma denúncia de um presidente eleito - e, se ele fez uma denúncia dessa gravidade, temos de levá-lo a sério", disse. "Lógico que me preocupa."

Nos bastidores do Itamaraty, porém, as acusações de Lugo foram comparadas às inúmeras denúncias de conspiração dos presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e da Bolívia, Evo Morales. Segundo um diplomata brasileiro, nenhuma delas tem fundamento e todas parecem orientadas a angariar apoio popular para o governo.