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08/02/2018 03h05

Brasil se destaca na Matemática, mas cortes no Orçamento prejudicam avanços - Bloco 5

Os cortes no Orçamento da Ciência e Tecnologia atingem uma área específica: a Matemática. O Brasil já tem um pesquisador premiado, instituições reconhecidas e vai sediar um congresso internacional em agosto. Mas o desempenho dos estudantes dos primeiros anos de escola ainda deixa muito a desejar. “Ciência sem dinheiro” é o tema da reportagem especial desta semana. Confira agora, o último capítulo.

O Brasil tem se destacado, nos últimos anos, em uma área da ciência: a Matemática. O pesquisador Arthur Ávila, do Instituto de Matemática Pura e Aplicada e do Centro Nacional de Pesquisas da França acabou 2014 como o vencedor da Medalha Fields, uma espécie de Prêmio Nobel da Matemática. Em agosto, o Rio de Janeiro vai sediar o Congresso Internacional de Matemáticos – é a primeira vez em 120 anos que o evento vai acontecer no Hemisfério Sul.

Para alcançar níveis de excelência, o investimento em Matemática deve começar cedo, nos bancos escolares. Mas o Brasil não tem feito bem este dever de casa, pelo menos a julgar pelo desempenho dos estudantes. A situação foi exposta em uma audiência pública aqui na Câmara dedicada à Matemática brasileira. Katia Smole, diretora de uma empresa que desenvolve métodos pedagógicos, trouxe dados do Q-Edu, um projeto que lida com dados educacionais:

Katia Smole: “Nos estados com os melhores resultados em aprendizagem matemática, depois de nove anos na escola, 80% dos alunos do nono ano não sabem matemática. Nós temos estados nos quais 3% apenas, então, de cada 100 alunos que entram no 1º ano do Ensino Fundamental, apenas três terminam o 9º ano sabendo a matemática que deveriam saber.”

O professor Vinícius da Costa, que dá aula para os ensinos fundamental e médio na rede pública de Brasília, diz que uma das dificuldades é que a aula de Matemática de 2018 não atende às demandas dos estudantes e que é preciso fazer uma adequação.

Vinícius da Costa: “Seja pelo uso das novas tecnologias como agente facilitador dessa aprendizagem, né, uma coisa mais lúdica, ou até mesmo buscar inovar, tentar romper um pouco o quadro-negro/sala de aula e tentar explorar outros espaços da escola, tentando integrar isso aí com o conteúdo também.”

Vinícius afirma que muitos estudantes chegam sem a base dos anos anteriores. Por isso, a cada início de ano letivo, é necessário fazer uma análise diagnóstica do grupo. A dificuldade com a Matemática, diz ele, afeta até a autoestima do aluno.

Vinícius da Costa: “Às vezes ele desanima tanto que o professor em sala tem que fazer um trabalho para resgatar esse aluno e mostrar que ele é capaz, que é possível melhorar esta base sim, e dar uma tranquilizada nele, ver quais as dificuldades e traçar um plano para tentar resgatar, né? Para que ele consiga avançar.”

Na outra ponta também há problemas. O Orçamento para 2018 do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Impa, é menor do que o do ano passado. Foram aprovados R$ 80 milhões, além de uma complementação de R$ 7 milhões no final de 2017. De acordo com o diretor Marcelo Viana, são 45 pesquisadores, 190 alunos de Mestrado e Doutorado e 110 funcionários.

A falta de dinheiro fez a direção adiar, no ano passado, a renovação de equipamentos de Informática. Este ano a compra terá que ser feita. Como há 18 anos o Impa deixou de ser um órgão público e passou a ser uma organização social, que tem contrato com o governo federal, há mais flexibilidade, por exemplo, para reduzir custos com a folha de pagamento.

Dependendo do que for liberado do Orçamento em 2018, projetos importantes podem ficar comprometidos. Um deles é a OBMEP. A Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas chega à décima-quarta edição. Segundo o diretor do Impa, Marcelo Viana, o custo por aluno é de menos de três reais. Mesmo assim, ajustes terão que ser feitos.

Marcelo Viana: “Nós queremos preservar aquilo que a Olimpíada faz bem, faz melhor, que é chegar a todos os municípios, identificar, dar a oportunidade em praticamente todos os municípios do país, e para isso poder acontecer com as restrições orçamentárias, nós estamos, ainda, por exemplo, buscando com os Correios um jeito de reduzir os custos. O item dos Correios é um dos itens mais altos do Orçamento da Olimpíada. Por que? Porque nós precisamos enviar o material para todas as escolas do país, são 53 mil escolas.”

As Olimpíadas empolgam os alunos das escolas públicas. Quem garante é a professora Ana Paula Vilarinho, que em 2017 deu aulas para o nono ano em uma escola de São Sebastião, cidade do Distrito Federal. Na primeira fase, todos fazem uma prova de múltipla escolha. Quem passa para a segunda etapa enfrenta questões mais difíceis. Os melhores recebem menções honrosas e medalhas.

Ana Paula Vilarinho: “Ficam super animados, super estimulados. Quem pega menção honrosa, no ano seguinte quer a medalha de bronze, quem pega medalha de bronze no ano seguinte quer medalha de prata.”

Ana Paula foi um dos professores premiados justamente pela boa performance de seus alunos nas Olimpíadas. Ela também participou do projeto OBMEP na Escola, com aulas extras de preparação para as provas. E diz que a competição tem reflexo no desempenho escolar dos alunos, mas que é preciso que eles sejam estimulados.

Ana Paula Vilarinho: “Porque pode ganhar prêmio, porque pode mudar a vida deles, porque pode detectar talentos, né? Porque pode despertar interesse que na sala de aula ele não têm, mas com aquelas questões diferentes e criativas de raciocínio lógico, ele começa a gostar mais da matéria.”

Outro grande evento é o Congresso Internacional de Matemáticos, que acontece a cada quatro anos. O Rio de Janeiro recebe o encontro no momento em que se candidata a ingressar na “divisão de honra” da União Matemática Internacional. O custo do congresso gira em torno de R$ 15 milhões, dos quais 3 a 4 milhões são angariados com as taxas de inscrição. Por isso, a ordem é economizar nos custos, já que alguns encargos foram assumidos no ato da candidatura e têm que ser cumpridos. Marcelo Vianna dá um exemplo do que não pode ser adiado.

Marcelo Vianna: “Dar apoio financeiro à participação dos matemáticos dos países em desenvolvimento, é uma tradição do congresso.”

O Instituto de Matemática Pura e Aplicada completa 66 anos em 2018. Segundo o diretor, a Matemática é uma das áreas mais novas dentro da ciência brasileira, tem 60 anos como atividade regular. Conseguir recursos, para ele, significa dar continuidade à missão do instituto.

Marcelo Vianna: “Disseminar o conhecimento a gente faz por meio de elaboração e publicação de livros, vídeos, as Olimpíadas da Matemática, programas de formação de professores e também por meio de popularização da Matemática, que é o que a gente está fazendo agora de maneira muito intensa com as atividades do Biênio da Matemática.”

O Biênio da Matemática foi aprovado por lei no Congresso Nacional no final de 2016 e vale para 2017 e 2018. Até o final deste ano, serão vários eventos, com o objetivo de estimular o estudo da matemática, oferecer atividades para públicos variados, treinar professores e popularizar esta ciência.

Termina aqui a Reportagem Especial sobre “Ciência sem dinheiro”.

Reportagem - Cláudio Ferreira
Produção - Daniela Rubstein e Cláudio Ferreira
Edição - Mauro Ceccherini
Trabalhos Técnicos - Milton Santos