Ir para o conteúdo. | Ir para a navegação

08/02/2018 03h04

Os institutos de pesquisa e o financiamento da ciência pela iniciativa privada - Bloco 4

Os institutos de pesquisas também estão entre os mais atingidos pelos cortes no Orçamento em Ciências e Tecnologia. Entre eles, estão: museus, parques zoobotânicos e estações científicas. Sem investimento e pesquisa, forma-se uma imensa lacuna de conhecimento sobre a Amazônia, por exemplo. “Ciência sem dinheiro” é o tema da Reportagem Especial desta semana. Neste capítulo, um debate polêmico: o financiamento da ciência pela iniciativa privada.

A crise provocada pelos cortes no Orçamento de Ciência e Tecnologia atinge em cheio as universidades, mas infelizmente, elas não são as únicas prejudicadas. A situação dos 16 institutos de pesquisa vinculados ao Ministério da Ciência e Tecnologia também não é confortável. Para o deputado Celso Pansera, do PMDB do Rio de Janeiro, as universidades levam uma pequena vantagem.

Celso Pansera: “Eu diria que os institutos de pesquisa estão piores do que as universidades. Por que que é uma situação pior do que as universidades? Porque as universidades são emergências, então o governo responde às emergências e às urgências, e não às questões estratégicas.”

O Museu Paraense Emilio Goeldi, que desde 1866 faz pesquisas científicas sobre a Amazônia, tem sido bastante afetado pelos cortes. O diretor Nilson Gabas Júnior diz que os problemas com o quadro de pessoal, por exemplo, são graves. O último concurso aconteceu em 2014. Até o final deste ano, 25% dos servidores estarão aposentados e a mesma porcentagem optará pelo abono permanência, ou seja, são aposentados que continuam a trabalhar mas podem sair a qualquer momento. Além disso, a falta de recursos fez com que a direção cortasse 67% de um dos contratos de funcionários terceirizados de limpeza. Áreas como segurança e manutenção predial também foram alvo de ajustes.

Nilson Gabas Júnior: “Somos um instituto estratégico para a Amazônia, estamos bem localizados, produzimos ciência de qualidade, temos em nosso favor a classe política, a mídia sobretudo e a população, não só de Belém, mas da região metropolitana, do estado e do país, bastante sensibilizada à nossa causa. É claro que isso ajuda a fazer o barulho e estamos já propensos a começar a fazer barulho assim que for definido de uma vez por todas o orçamento e o corte que deve vir aí, esse contingenciamento, eu já estou preparando todo mundo para a gente começar a fazer barulho de novo e a gente deve conseguir. Mas não é assim que se faz ciência, né? Todo ano você ter que ficar fazendo barulho.”

O museu tem três bases físicas: o Parque Zoobotânico, na área central de Belém; um campus de pesquisa e uma estação científica na ilha do Marajó. Segundo o diretor Nilson Gabas Júnior, o maior comprometimento decorrente da falta de verbas é com os laboratórios. Não há recursos, por exemplo, para comprar novos equipamentos. No ano passado, o museu conseguiu a aprovação de um projeto por meio de um edital da Finep, agência de fomento do governo, mas os R$ 2 milhões não chegaram.

Para investir em pesquisa e preencher o que ele chama de “algumas lacunas do conhecimento sobre a Amazônia”, o diretor calcula que o Orçamento anual do Museu Emilio Goeldi deveria ser de R$ 20 milhões. Em 2017, foram 12 milhões, dos quais mais de 5 milhões foram contingenciados, ou seja, não estavam disponíveis para serem gastos. O Orçamento de 2018 é de 11 milhões, mas ainda não se sabe quanto chegará na conta da instituição.

Nilson Gabas Júnior: “Nós somos muito demandados pela sociedade, pelo poder do governo estadual, pelo poder federal, pressão muito grande da comunidade acadêmica e científica mundial, porque a gente precisa produzir conhecimento sobre a Amazônia, não apenas produzir conhecimento, mas indicar caminhos de como é que você pode interferir em grandes empreendimentos da Amazônia.”

Se não há dinheiro público, por que as pesquisas científicas não podem ser financiadas com recursos privados? O diretor do Museu Emilio Goeldi diz que a referência a países desenvolvidos, como Estados Unidos, Alemanha e França é injusta.

Nilson Gabas Júnior: “Sinceramente, não dá pra comparar o Brasil junto com esses países que tem já uma metodologia e que já tem a parte do início que agora que é o que nós precisamos fazer, que é ter recursos públicos pra poder fazer com que a gente tenha algumas áreas de ponta que sejam atrativas para poder você trazer a indústria e ajudar a indústria e os parceiros empresários no que se refere a inovação científica e a parceria com as instituições provedoras de uma base científica e tecnológica.”

A coordenadora do movimento Conhecimento Sem Cortes, Tatiana Roque, faz coro com o diretor do instituto de pesquisa.

Tatiana Roque: “Para ter investimento privado, é preciso investimento público. Não existe investimento privado do nada. É o investimento público na ciência básica que gera a capacidade de inovação que pode, num futuro próximo, gerar um investimento privado.”

É a mesma linha de raciocínio de Julio Cesar Felix, da Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação, que destaca a margem de risco da pesquisa científica, que nem sempre é atrativa para as empresas.

Julio Cesar Felix: “Mesmo em áreas altamente inovadoras – farmacêuticas, energias renováveis, tecnologia da informação – o setor privado só entra em campo depois de o setor público ter bancado investimentos vultosos em pesquisa em fases nas quais os resultados eram totalmente incertos.”

Todos falam em inovação, que é uma das pontes entre a pesquisa científica e a vida fora do ambiente acadêmico. A falta de dinheiro para a pesquisa básica faz diminuir a capacidade de inovar. A diretora de Inovação da Confederação Nacional da Indústria, Gianna Sagazio, que esteve aqui na Câmara no final de 2017, trouxe os resultados do Global Innovation Index, um ranking anual da área. O Brasil caiu 22 posições nos últimos seis anos e está em sexagésimo-nono lugar. Ela apresentou um dado ainda pior.

Gianna Sagazio: “Se nós analisarmos a eficiência em inovação, que é como o Brasil está convertendo os insumos de inovação em produto, nós estamos em 99º lugar em 127 países.”

Inovação, a médio e longo prazo, garante mais divisas para o país. É o que explica Rosilda Prates, da Associação de Empresas de Desenvolvimento Tecnológico Nacional e Inovação, a P e D Brasil.

Rosilda Prates: “Quando um produto, ele é importado, ele agrega para o país 30 por cento. Quando ele é manufaturado, ele agrega 52%. Mas quando ele tem desenvolvimento tecnológico nacional, ele agrega 85% de riqueza pro país. Onde nós queremos apostar as nossas fichas? O que nós queremos ser daqui a 20, 30, 50 anos?”

Para Ildeu de Castro, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, o Brasil já tem várias experiências que mostram como é efetiva a contribuição da ciência para a economia.

Ildeu de Castro: “O caso da agricultura é ímpar, no caso da Embrapa, das universidades públicas que fazem com que o Brasil seja um dos campeões de produção agrícola no mundo porque tem muita ciência e muita tecnologia envolvida. No caso da Petrobrás, a descoberta e a exploração do pré-sal, que está atingindo metade da produção brasileira, foi produto do trabalho dos cientistas, dos geólogos, dos engenheiros brasileiros nos últimos anos, com a descrença de muita gente. Hoje a metade da produção brasileira significa 60 bilhões de reais por ano”

O financiamento da pesquisa pela iniciativa privada é um assunto controverso. Para alguns, ele direcionaria a ciência para os interesses do mercado. Outros acham que é uma boa maneira de viabilizar projetos em várias áreas. Esse debate vai longe.

No último capítulo da Reportagem Especial, saiba como os cortes no Orçamento da Ciência e Tecnologia atingem uma área específica: a Matemática.

Reportagem - Cláudio Ferreira
Produção - Daniela Rubstein e Cláudio Ferreira
Edição - Mauro Ceccherini
Trabalhos Técnicos - Milton Santos