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08/02/2018 03h03

O fim do programa “Ciência Sem Fronteiras” e a perspectiva dos estudantes - Bloco 3

O fim do programa “Ciência Sem Fronteiras” para a graduação frustrou a expectativa de estudantes em todo o país. Depois de 6 anos, o “Ciência Sem Fronteiras” agora só vai atender à pós-graduação. “Ciência sem dinheiro” é o tema da reportagem especial desta semana. No terceiro capítulo, estudantes que participaram do programa dizem o que esperam do futuro da Ciência no país.

O programa Ciência Sem Fronteiras, criado em 2011 pelo governo federal, concedeu mais de 100 mil bolsas a estudantes brasileiros que queriam ter uma experiência acadêmica no exterior, da graduação ao pós-doutorado. Os Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia, junto com agências de fomento como CNPq e Capes, enviaram alunos para países como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e França. Mas a falta de recursos também atingiu o programa. Em 2016, o Ministério da Educação fez uma reavaliação e achou o custo médio por aluno, de R$ 100 mil, muito alto. Em 2017, o anúncio oficial: o Ciência sem Fronteiras passou a atender exclusivamente a pós-graduação.

Alexandre Vilik Neto era estudante de Engenharia Mecatrônica em 2014, quando foi selecionado para um período de um ano na Universidade de Glasgow, na Escócia. Ele cursou nove disciplinas e participou de um projeto prático de manuseio e produção de circuitos eletrônicos. Na universidade estrangeira, as aulas eram mais curtas do que na Universidade de Brasília, onde ele fazia a graduação, mas os laboratórios tinham recursos equivalentes. Depois desta experiência, Alexandre teve mais clareza sobre as áreas de atuação do curso, o que segundo ele foi um bom estímulo na reta final.

Formado desde julho do ano passado, ele ainda está desempregado. Mas está tentando empregos no Brasil e no exterior, além de concorrer a vagas de Mestrado lá e cá. O agora engenheiro reconhece que a oportunidade do Ciência Sem Fronteiras pode ser um diferencial no currículo.

Alexandre Vilik Neto: “Os avaliadores e os empregadores, não sei por que, para o bem e para o mal, eles valorizam as pessoas que têm intercâmbio. Isso tem aberto algumas portas ou pelo menos colocado em certas vantagens.”

O benefício, segundo Alexandre, não é só na hora de pleitear trabalho no Brasil.

Alexandre Vilik Neto: “Também abre um pouco de portas para experiências internacionais. Citar que eu estudei na Escócia, para algum professor de Mestrado fora ou empresas fora, por exemplo, já dá ao empregador o conhecimento de que eu tenho vivência internacional, então, que não será nada de novo, que eu já tenho essa experiência e que eu estou preparado para o mercado de trabalho ou o mercado acadêmico lá fora.”

A experiência da estudante Jessica Mendes foi parecida. Ela passou um ano, entre 2015 e 2016, na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. Fez disciplinas em áreas que ainda não tinha explorado no Bacharelado em Biologia no campus de Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos, a UFSCAR. Viu que as aulas também eram mais curtas do que no Brasil, mas as tarefas de casa eram mais volumosas. E avalia que sua grande oportunidade foi um estágio de dois meses em Genética Molecular.

Jessica Mendes: “Eu adquiri muita experiência lá, porque eu consegui fazer muita coisa, tinha muito material e a estrutura eu acho que era melhor assim, nunca faltava nada.”

Como não obteve equivalência das disciplinas cursadas no exterior, Jessica atrasou o término do curso. Mas ela não reclama: o estágio em Genética Molecular impulsionou a continuidade da carreira acadêmica.

Jessica Mendes: “Quando eu cheguei na UFSCAR, eu já foi procurar professores dessa área pra eu continuar trabalhando nisso mesmo, porque eu gostei muito e penso em fazer um Mestrado e Doutorado com isso.”

A quase bióloga Jéssica Mendes lamenta que o programa Ciência Sem Fronteiras tenha fechado oportunidades para a graduação. Mas ela reconhece que, com a falta de recursos, é mais proveitoso dar as vagas para quem está na pós-graduação.

Para Alberto Peverati, do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Ciência e Tecnologia, os estudantes que passaram pelo Ciência Sem Fronteira encontram dificuldades para continuar a vida profissional.

Alberto Peverati: “Esses jovens voltaram de universidades de ponta no exterior, outras de características duvidosas, porém, voltaram aqui pro país, com a promessa de serem encaixados. Aonde? Na indústria, que tá numa retração muito grande. Onde é que eles vão? Pras universidades, que há um enxugamento das estruturas?”

O futuro também é incerto para os estudantes de Mestrado e Doutorado. Foi o que declarou a presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos, Tamara Naiz, durante audiência pública aqui na Câmara.

Tamara Naiz: “Nos encontramos com muita incerteza em relação ao futuro, ao nosso futuro, ao futuro do nosso país e ao futuro da nossa ciência. Tememos a placa de “não há vagas” no próximo ano ao titular. Os 14 mil doutores que nós vamos titular em 2017 temem a placa de “não há vagas”, de não serem absorvidos pelas universidades, pela indústria do nosso país.”

Juliana Carvalho defende o Mestrado até o fim deste semestre – está na Antropologia da Universidade Federal Fluminense. A pesquisa é sobre artistas circenses que estão nas ruas das grandes cidades, fazendo malabarismo, por exemplo, nos semáforos. Juliana recebe uma bolsa, que tem que custear seus gastos pessoais e as despesas do curso.

Juliana Carvalho: “Às vezes, eu preciso participar de oficinas que possuem um custo, fora os congressos, né, que a gente vai pra aprender um pouquinho mais, pra fazer uns contatos, e aí também envolvem outros custos, avião, passagem, hospedagem, às vezes a gente consegue apoio, mas são muitos estudantes, não tem como oferecer isso para todo mundo.”

O problema é o valor da bolsa: R$ 1.500 por mês. Por isso, nem todos os alunos conseguem ter dedicação exclusiva à pesquisa.

Juliana Carvalho: “Alguns companheiros meus de Mestrado recusaram a bolsa, porque já estavam trabalhando e recebiam valor superior à bolsa pra viver e achavam que era melhor, embora tivessem um pouco menos de tempo para estudar. A verba fazia diferença. Então, optaram por não receber a bolsa.”

O goiano Bruno Miranda está em Brasília desde 2014 fazendo Doutorado em Matemática. Medalhista da Olimpíada Brasileira de Matemática em 2008, garantiu bolsas de iniciação científica, Mestrado e Doutorado. Muitos colegas não tiveram a mesma sorte.

Bruno Miranda: “No ano de 2014, todo mundo que entrou no programa de Doutorado comigo, foram 15 aprovados, recebeu bolsa. Já agora no ano de 2018, até onde eu sei, 15 foram aprovados e só dois têm bolsa.”

A diminuição de recursos não afetou a infraestrutura para a sua pesquisa, porque a área de Matemática não demanda equipamentos caros. Mas o dinheiro fez falta de outra maneira.

Bruno Miranda: “Nós deixamos de ter verba para participação em eventos e pra fazer algum tipo de intercâmbio, o que era bem mais comum cinco, seis anos atrás. Eu, por exemplo, não tive chance de fazer um Doutorado sanduíche, passar seis meses fora, o que era uma intenção minha, por questão de falta de verba. O que era abundante há um tempo agora já não é mais.”

Concluindo o Doutorado neste ano, Bruno já sente a escassez de concursos para professor de universidades públicas. Se for trabalhar em uma universidade particular, o salário é por hora-aula e a chance de fazer pesquisa diminui bastante. Depois de tanto tempo dedicado à carreira acadêmica, ele diz que seu futuro ainda é nebuloso.

Na quarta parte da Reportagem Especial, saiba como os cortes no Orçamento atingiram os institutos de pesquisas. E mais: o financiamento da ciência pela iniciativa privada

Reportagem - Cláudio Ferreira
Produção - Daniela Rubstein e Cláudio Ferreira
Edição - Mauro Ceccherini
Trabalhos Técnicos - Milton Santos