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13/08/2011 00h00

Lixo Zero: o conceito de reciclagem - Bloco 3

Durante esta semana, a Rádio Câmara está levando até você uma série de reportagens sobre o conceito de lixo zero, ou seja, a busca pela redução máxima de envio de resíduos sólidos aos aterros sanitários. Hoje, na terceira reportagem da série, o jornalista Edson Júnior aprofunda o conceito de reciclagem, mostra como ela é feita no Brasil e o impacto que tem na economia do país e explica as ações que promovem a sustentabilidade nos edifícios que compõem a Câmara dos Deputados.

TEXTO

Para reduzir ao máximo o volume de material lançado nos aterros sanitários e portanto perseguir a meta lixo zero, é preciso estabelecer uma ordem de atitudes por parte do consumidor. A primeira delas é não gerar resíduos, mas como ainda é muito difícil não gerar, separar corretamente os materiais para que sejam reciclados se torna ainda mais importante. Mas o que é exatamente a reciclagem? Quem explica o conceito técnico é o consultor ambiental da Recicloteca, centro especializado em coleta, armazenamento e distribuição de informações sobre o assunto, Eduardo Benhardt.

"A reciclagem, tecnicamente falando, é a transformação química ou física da matéria , transformando algo velho, quebrado e inútil e um material novo. Isso já é feito há muitos anos. Em alguns aspectos... em relação, por exemplo, ao papel , você já pode dizer que é feito até a séculos, porque sempre se reutilizou o papel usado no processo de fabricação de um papel novo. E o processo industrial sempre aproveitou de alguma maneira, umas sobras, digamos assim, do produto final, para economizar matéria prima; posteriormente isso foi agregado ao valor ambiental."

A Recicloteca é considerada o maior centro de informações sobre reciclagem da América Latina. Fundada pela ONG Eco-Marapendi, ela atende mais de 150 mil pessoas por ano, prestando informações tanto pessoalmente como por e-mail, e facilitando a pesquisa sobre o assunto em sua biblioteca, que conta com mais de quatro mil títulos entre livros e periódicos.

Eduardo Benhardt explica que, atualmente, a população brasileira está mais preparada para a coleta seletiva do lixo. Ele afirma, no entanto, que a melhoria dos índices de reaproveitamento de resíduos sólidos no país teve, como personagem principal, o catador de recicláveis. Graças a esses homens e mulheres, o Brasil recicla mais de 60 por cento das garrafas pet e 98 por cento das latinhas de alumínio. Benhardt defende uma política para a inclusão social desses trabalhadores.

"O trabalho deles hoje é importante para fins ambientais , mas desde o início foi importante para fins sociais , era um emprego, uma forma de se sustentar. inclusive são os profissionais da reciclagem que sabem muito mais do que qualquer um de nós, técnicos , estudiosos no assunto sobre o que é reciclável e não é, sobre o que tem valor e o que não tem , como se recicla ... Eles olham e identificam no olho aquilo que a gente precisa fazer um teste químico ou físico para descobrir . Agora é fundamental investir na capacitação , treinamento de modo que eles mudem dessa posição de explorados para a posição de profissionais verdadeiramente qualificados e organizados para realizar um trabalho tão importante."

Foi exatamente com foco no catador de material reciclável que o Ministério do Meio Ambiente encomendou um estudo junto ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, IPEA. O levantamento teve dois objetivos principais, como explica o coordenador de desenvolvimento sustentável do instituto, Gustavo Luedman.

"A ideia inicial do ministério quando nos procurou é que havia um prejuízo muito grande em se aterrar materiais que pudessem ser reciclados, tinham essa ideia de que o Ipea poderia ajudá-los a ter um número que pudesse expressar esse desperdício, e a finalidade desse estudo seria subsidiar políticas públicas que fomentassem o trabalho de catadores de material reciclável,quer dizer, seria uma política com viés social, para melhorar a qualidade de vida dessas pessoas que vivem de separar materiais recicláveis que vão para o lixo e, também, garantir que essa atividade também não cessasse, como foi no caso, em 2008, que muitos catadores não conseguiam sobreviver dessa atividade por conta da queda do preço dos materiais recicláveis."

Gustavo Luedman explica que, de acordo com as conclusões do levantamento, o Brasil deixa de economizar cerca de oito bilhões de reais por ano ao enviar para os aterros sanitários materiais como celulose, plástico, vidro e alumínio. Segundo ele, o objetivo final do estudo foi valorar o serviço ambiental prestado pelos catadores.

"O trabalho feito pelo IPEA foi fazer um pagamento fixo por tonelada de material entregue . Como seria esse pagamento? Na verdade, no momento em que o catador separou esse material, ele está pronto para ser vendido para as empresas recicladoras , ele receberia , vamos dizer assim, uma nota fiscal, e com essa nota fiscal ele poderia comprovar que ele produziu aquele beneficio ambiental para a sociedade e, com base nisso, alguma entidade governamental poderia fazer o pagamento com base nesse serviço prestado."

Quando pensamos em reciclagem, logo vêm à mente os clássicos entre os materiais: papel, papelão, plástico, vidro e alumínio. Mas e a matéria orgânica, estaria fadada a ir para o aterro sanitário? Não necessariamente. Embora ainda pouco utilizada no Brasil, a compostagem feita a partir do lixo orgânico começa a ser mais propagada como solução para a destinação dos resíduos não sólidos.

A professora Ana Maria Junqueira, do Departamento de Agronomia da Universidade de Brasília, explica o que pode ser aproveitado e como funciona o processo.

"A compostagem é o processo aonde nós podemos colocar matéria orgânica, que aí seria tudo aquilo que nós consumimos , em indústrias, residências, que seja lixo orgânico, restos de vegetais, de animais, podem ser colocados para compostar juntamente com folhas, solos e outras substâncias, e esse material então é transformado; existe uma decomposição controlada desses vegetais e desses estercos, e vai se obter uma matéria orgânica que é utilizada muito na agricultura como adubo. Qualquer material de origem animal e vegetal que não tenha contaminantes pesados, caso de metais pesados, pode ser utilizado para fazer a compostagem".

A professora afirma que a compostagem é economicamente viável, mas sua aplicação na agricultura exige planejamento.

"O adubo químico, você vai na loja, compra adubo químico e ele está prontamente disponível para você aplicar na lavoura. A compostagem é um processo que leva um tempo para a gente conseguir fazer com que os microrganismos , que atuam em cima dos materiais que estão ali, façam a decomposição. Como leva tempo, é preciso que haja um planejamento dentro da propriedade sobre a quantidade de composto que será necessário e qual o tempo que vai ser produzido antes de começar a plantar. Então desde que se faça um planejamento , que se construa as composteiras , fica muito mais barato do que a aplicação do adubo químico."

Ana Maria Junqueira explica ainda que o lixo produzido nas casas também pode ser utilizado pelas prefeituras para fazer a compostagem orgânica, reduzindo ainda mais o volume de materiais destinados aos aterros.

"É viável sim, eu acredito que esta coleta pode ser feita; a compostagem pode ser feita inclusive pela prefeitura do município e esses compostos podem ser aplicados na própria arborização, na própria jardinagem, nos parques dessas cidades. Se for uma quantidade muito grande, a prefeitura pode inclusive trabalhar no sentido de vender os compostos para áreas agrícolas que tenham um maior interesse de utilização desses produtos."

Promover a sustentabilidade em todas as atividades exercidas nas dependências da Câmara dos Deputados. Esse é o objetivo do EcoCâmara, um programa que procura orientar os departamentos da casa para que promovam a preservação ambiental no seu cotidiano.

A coordenadora-geral, Janice Silveira, fala da gênese do programa e como ele vem evoluindo desde sua criação.

"O Ecocamara surgiu em 2003 , ele começou com iniciativa de vários servidores, que, de forma voluntária, gostariam de trabalhar a questão da sustentabilidade na Casa. De lá para cá, muita coisa aconteceu , nós começamos com a coleta seletiva em 2004 e o Ecocamara vem ganhando uma força nesses últimos anos, porque foi uma atitude de vanguarda de poder criar esse núcleo de gestão socioambiental, então, desde então nós estamos trabalhando com diversos assuntos relacionados a questão de sustentabilidade na Casa."

Janice Silveira enumera algumas ações adotadas na casa a partir das orientações do EcoCâmara.

"A adoção dos filtros de água , ao invés das garrafas de água (isso já é feito no anexo 1), diminuiu bastante o consumo da garrafa pet e copo plástico; nós temos também o encaminhamento de 300 metros cúbicos de isopor e polietileno expandido para reciclagem, isso foi feito quando a Câmara adquiriu novos computadores ; a transformação de vários materiais impressos oriundos desses gabinetes dos deputados que não se reelegeram, e foram transformados em outros produtos como bloquinhos , cartões personalizados; o retorno de mais de 950 mil envelopes oriundos desses gabinetes de deputados que foram reaproveitados... então além disso , para gente exemplificar essa questão do lixo zero , a gente também... quase toda borra de café utilizada nas copas, ela vai para reutilização para composto para os jardins."

Como se pode notar, ações simples, consideradas por alguns até banais, que parecem ter pouca eficácia, podem sim fazer uma grande diferença e contribuir para perseguirmos a meta do lixo zero. Vamos tentar?

De Brasília, Edson Junior