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08/03/2010 00h00

Especial 2 - Quadrinhos formam valores pessoais entre os leitores (05'40'')

As revistas em quadrinhos fazem parte do aprendizado de leitura de muita gente.

Gente que depois vira leitor. Ou até mesmo desenhista de quadrinhos. Gente como o quadrinista Maurício de Sousa, um desses que leu o gibi antes do livro.

"Eu aprendi a ler com histórias em quadrinhos. Antes de entrar para a escola, já acompanhava histórias do Mandrake, Tarzã, Fantasma. Eu dizia que um dia faria as minhas histórias em quadrinhos. E de tanto ler, treinar desenho, ser incentivado pela família, consegui fazer. Precisei ignorar a dúvida que havia de que história em quadrinhos no Brasil não iria funcionar. Eu ignorei isso e está funcionando até hoje."

Alvaro de Moya, lendário desenhista brasileiro, que desenhou capas do Tio Patinhas e do Pato Donald nos anos 50, lembra que também começou a ler com os gibis.

"Meu irmão assinava os suplementos juvenis e eu via o Flash Gordon, e foi aí que eu passei do quadrinho mesmo antes de aprender a ler. Eu não sabia o que estava escrito, mas os balõezinhos me influenciavam muito."

Moya lembra dos tempos em que começou a desenhar.

"Na década de 40, eu passei a trabalhar profissionalmente. Eu desenhei quadrinhos, depois fui contratado pela editora Abril e eu fazia as capas do Pato Donald e do Mickey. Naquele tempo os editores acreditavam que os leitores brasileiros não acreditavam no quadrinho brasileiro. Só aceitavam o quadrinho estrangeiro."

Outro que começou a ler através dos quadrinhos foi Jotabê Medeiros, crítico de quadrinhos do jornal "O Estado de S.Paulo".

"Como aconteceu comigo que comecei a ler lendo os quadrinhos do Ken Parker, faroestes, o meu gênero preferido. Acho que essa é uma porta de entrada. Hoje em dia vivemos outro tipo de cultura visual. O computador e a Internet têm sido a forma mais frequente de acesso e doutrinação de um mundo letrado para as crianças que estão começando a aprender"

Jotabê lembra o contexto da época em que as histórias em quadrinhos serviam como promotoras da cultura no interior do país.

"Essas pessoas que estão na faixa dos 40 anos ou um pouco mais, elas viveram num Brasil, as que viviam no interior do país, um Brasil que não tinha acesso à cultura de uma forma geral. As bancas de jornal tinham pouquíssimas publicações. E nessa época você tem no interior do país o único acesso à leitura, que era por meio da fotonovela ou gibis. E ainda assim velhas, de segunda mão."

Virgilio de Souza, professor de ciência da computação em Cuiabá, também adquiriu o hábito da leitura a partir dos gibis.

"Eu me vejo uma prova disso. O meu hábito de leitura foi basicamente em cima de histórias em quadrinhos. Fui evoluindo em cima disso. Depois eu fui lendo outros livros e muitos valores vieram desse tipo de leitura."

Além de formar crianças para a leitura, especialistas dizem que histórias em quadrinhos podem influenciar comportamentos.

O quadrinista Mauricio de Sousa é um dos que reforça essa tese:

"Eu penso que uma história em quadrinhos, um livro, uma novela, qualquer manifestação de comunicação, pode influenciar de alguma maneira o comportamento. Porque tudo é informação. A história em quadrinhos, chamada de nona arte, pode levar também a algum tipo de sugestão de comportamento. Muitas vezes é usada dessa maneira. Como no tempo da guerra. Em alguns países, a HQ é utilizada até para catequizar. A HQ tem possibilidade de informar, formar e ao mesmo tempo temos que ter muito cuidado com o que colocamos na HQ."

Alvaro de Moya também pensa dessa forma. Ele lembra das vantagens do velho modelo dos gibis.

"Tem sempre mocinho e bandido, o bem e o mal. O crime não compensa. As pessoas se dedicam ao próximo sem interesse pecuniário. Quer dizer o quadrinho tem sempre um papel educativo."

Mas o jornalista Jotabê Medeiros relativiza o poder de influência de qualquer tipo de arte sobre o lado psicológico de uma pessoa.

"Se você tem uma pessoa com um desvio psicológico grande, essa pessoa pode ter "O Apanhador no Campo de Centeio" e matar o John Lennon. As obras de arte não são responsáveis pelos atos das pessoas. Elas (as pessoas) estão no mundo com vizinhos, os pais, os amigos, a escola. Mudar a personalidade é uma coisa muito complexa."

Na próxima reportagem, a última desta série, você vai saber mais sobre como a escola utiliza a história em quadrinhos para incentivar os alunos para a leitura.

De Brasília, Eduardo Tramarim