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25/08/2008 00:00

Especial SUS 20 Anos 3 – Críticas e questionamentos sobre o Sistema Único de Saúde no Brasil. (07'02")

NESTA SEMANA, O REPORTAGEM ESPECIAL ESTÁ APRESENTANDO UMA SÉRIE SOBRE O SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE, QUE EM 2008 COMPLETA 20 ANOS EM VIGOR. HOJE, NA TERCEIRA REPORTAGEM DA SÉRIE, CONFIRA OS PRINCIPAIS DESAFIOS PARA O SUS NO BRASIL. MÉDICOS E CIDADÃOS APONTAM AS QUESTÕES CRÍTICAS NO DIA-A-DIA DA SAÚDE.

Tarde de uma quinta-feira, no pronto de socorro do Hospital de Base. Estamos na maior unidade de saúde de Brasília. No meio da tarde, por volta das quatro horas, cerca de 50 pessoas esperam por suas consultas. A maior parte delas mora em cidades do Distrito Federal nos arredores da capital. Os pacientes precisam se deslocar até 40 quilômetros para conseguir consultas de especialidades como ortopedia. Márcia Sílvia está na fila com o seu filho Gleidson, de oito anos. O menino machucou o pulso e aguarda atendimento.

"Lá tem um posto 24 horas e só consulta pediatria e clínica médica, lá não tem hospital, só Samambaia, mas Samambaia não consulta ortopedista. Aí eu prefiro vir aqui porque aqui é melhor."

Márcia mora no Recanto das Emas, cidade que nasceu há 15 anos como um assentamento e hoje tem mais de 130 mil habitantes. Ela conta que quando o posto faz o encaminhamento para algum hospital próximo, ela chega a aguardar dois anos pela consulta com o especialista. Ainda assim, Márcia avalia que o atendimento no Distrito Federal é bom.

O Sistema Único de Saúde aparece como uma colcha de contradições. As estatísticas mostram avanços inquestionáveis, como a queda da mortalidade infantil; e os números do programa Saúde da Família impressionam. Segundo o Ministério da Saúde, hoje são 28 mil e 500 equipes em funcionamento em 94% do território nacional. Mas caminhar pelo pronto socorro do Hospital de Base é um choque. Os corredores estão tomados de pacientes que tentam se acomodar da melhor maneira possível nas macas precárias.

O médico intensivista Marcos Guimarães é coordenador das UTI´s pediátricas dos hospitais do DF. Ele afirma que hoje o SUS tem todo o serviço funcionando longe das condições ideais. As falhas na atenção básica obrigam as pessoas a lotarem os grandes hospitais.

"Se eu consigo dar um bom atendimento na Saúde da Família, no núcleo familiar, vou ter menos agravos que necessite da atenção do centro de saúde, que por sua vez, se resolve os problemas que lhe são competentes, vão deixar de procurar a atenção secundária, vão deixar de inchar os hospitais. (...) Como as coisas não estão articuladas, como não funcionam de acordo, então há uma dissociação, há um acúmulo. Então todos trabalham muito, pouca solução a gente tem e os problemas se agravam."

O médico conta que muitos casos que chegam às UTI´s começaram como uma simples diarréia que não foi tratada. Pelo desenho do SUS, esse tipo de atendimento deveria ser oferecido pelas equipes do Saúde da Família. O Ministério da Saúde garante que nos grandes municípios, 30% dos atendimentos são feitos pelo Saúde da Família. Naquela tarde, no Hospital de Base, nenhum paciente da fila já tinha sido atendido por uma equipe do programa. Doutor Marcos Guimarães fala que a legislação do SUS é perfeita, mas a falta de gerenciamento do sistema penaliza pacientes e profissionais de saúde.

"O paciente é mal atendido, ele está insatisfeito. O profissional de saúde por sua vez está trabalhando muito, de forma desordenada, desorganizada, com prejuízo de si próprio, inclusive adoecendo mais, porque o profissional de saúde também adoece como adoece a população em geral. Sob estresse, sob a falta de condições, ele fica também em uma situação bastante comprometida."

Para o médico intensivista, o problema não é falta de dinheiro, mas a ausência de planejamento e o hábito de nomear indicações políticas para cargos técnicos na administração hospitalar.

As críticas dos profissionais de Saúde ao SUS se repetem em diferentes locais do país. No Rio de Janeiro, o médico cirurgião da Santa Casa, José Geraldo Loures, afirma que o sistema de saúde brasileiro é um sistema de doença, pois na prática não trabalha com prevenção. Com 40 anos de medicina no currículo, ele não vê continuidade nas ações e avalia com preocupação a piora crescente da relação médico paciente. José Geraldo afirma que a quase total falta de recursos expõe o médico que trabalha na ponta como se fosse o responsável pela calamidade no atendimento.

"O paciente hoje nos olha com desconfiança. Muitas vezes uma mídia inconsequente fica apontando determinadas distorsões em posturas médicas, como por exemplo, médicos faltosos aos plantões, criminaliza o médico. O médico acaba sendo o bom bode expiatório para o fracasso do sistema vigente de saúde. Realmente, pelo menos Rio de Janeiro, o que nós estamos vendo é uma calamidade o atendimento de saúde pública."

Paulo César, de 41 anos, também estava na fila de atendimento do Hospital de Base. Ele saiu de Samambaia, a 40 quilômetros do hospital, para buscar atendimento para uma dor nas costas. No atendimento no hospital de Samambaia, a sua queixa é justamente sobre a falta de médicos.

"Na última vez que eu estive lá, realmente faltou médico e demorou bastante, realmente foram 5 horas de espera para pegar o atendimento. Na verdade, o atendimento de saúde todos nós sabemos que não é nada bom. Falta investimento no geral, né? A saúde realmente está precária, em todos os sentidos."

Depois de 20 anos de existência, o Sistema Único de Saúde convive com a lei escrita que garante o atendimento universal e a difícil prática de oferecer os serviços prescrito na Constituição.

De Brasília, Daniele Lessa

AMANHÃ, NA QUARTA REPORTAGEM DA SÉRIE ESPECIAL SOBRE O SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE, VOCÊ ACOMPANHA QUAIS AS PRINCIPAIS QUESTÕES ENVOLVIDAS NO FINANCIAMENTO E NA GESTÃO DE RECURSOS NO ATENDIMENTO FEITO PELO SUS. AS CINCO REPORTAGENS SOBRE OS 20 ANOS DO SUS PODEM SER OUVIDAS TAMBÉM NA PÁGINA DA RÁDIO CÂMARA NA INTERNET. O ENDEREÇO É WWW.RADIO.CAMARA.GOV.BR.




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