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23/08/2016 12h19

Adeus WhatsApp, goodbye Facebook, até breve Instagram

Eu parei. Puxei o freio de mão. Desliguei o carro. Acionei o pisca-alerta. Foi uma parada lenta, mas hoje é o meu primeiro dia sem WhatsApp, Facebook, Instagram.

Reconheço que o humor não está dos melhores. Algo estranho, um incômodo, não necessariamente um vazio, mas uma leve irritação marca o início do meu detox digital. Não tenho medo de nadar contra a corrente, de entrar em mares nunca antes navegados. Apenas preguiça.

Olho para a linha do continente e respiro aliviada por sair daquele caldeirão de informações, de mensagens, de pessoas, pim, pim, pim o tempo todo. A ideia de abandonar o WhatsApp veio de uma conclusão física: o aplicativo já me dava arrepios. O meu corpo gritava: estou cansado. Não aguentava mais essa história de bom dia para cá, boa tarde e textos intermináveis sobre gratidão, sobre arrependimento, sobre bondade e amorosidade, ou simplesmente memes sobre tudo. Me dava compaixão testemunhar a desgraça política do PT e transformar a incógnita que cerca uma nação em piada. Acho que isso não fazia bem para o meu crescimento espiritual. Me sentia invadida ao ter que responder ao tempo do outro, de maneira quase compulsiva, como quem come um gomo de chocolate, depois outro, e depois mais outro.

Bater papo no WhatsApp era como subir o morro do Quilombo, em São Bento do Sapucaí, com uma Rural de 1920 e uma gasolina de quinta categoria. Ô coisa que não avança... Não dá nem para explicar como esses aplicativos de voz são um verdadeiro “papa tempo” na sua vida... É kkkkk de cá, uma dica de lá, e a obrigação de ler 50 mensagens no grupo de pais da escola, para saber se você não está perdendo a notícia do ano, do tipo: a escola está quebrada e vai fechar. São verdadeiros cavaleiros do apocalipse esses zapeantes que falam sobre o novo golpe no sinal de trânsito; os tarados que jogam ácidos em mulheres; as novas drogas em forma de balinha e as festinhas de estudantes pervertidos que trocam os livros pelo funk e as bebedeiras.

É incrível o radar humano para o lado mal da notícia, mas até aí tudo bem. O problema é que essas mensagens trazem um tempo que não é seu, porque a saúde das suas relações depende de uma resposta instantânea, e essa instantaneidade da resposta torna-se não saudável, na medida em que sequer paramos para pensar sobre o que estamos fazendo, o que estamos escrevendo, do que estamos falando...

Quando se faz algo de maneira compulsiva, ainda que com gozo ou prazer, isso tem nome: dependência! Acordar às 3h para checar o meu zap era um dos sintomas de que eu precisava dar um tempo. Me sentia solidária aos fumantes que tragam nas madrugadas – quanta melancolia!

Em artigo publicado na revista Fast Company, em 2013, um escritor, roteirista e designer americano conta: “eu deixei a Internet" ¹ . O testemunho de Baratunde Thurston é engraçado e comovente. O que o levou a um detox – e eu disse detox, e não botox – digital, ou seja, a um processo profundo de desintoxição do uso das mídias sociais – foi um estilo de vida que poderia leva-lo à morte: para se ter uma ideia, por dia, ele postava quatro notícias no Facebook; 32 notas no twitter, 163 conversas no gmail e tirava em média 13 fotos por dia, além de ser nômade: em um ano, visitou 34 cidades, realizou seis viagens internacionais e passou mais da metade do ano fora de casa.

Baratunde faz uma análise interessante sobre o narcisismo que ronda a internet e as mídias sociais, e uma das conclusões é de que ele estava viciado nele mesmo. Fenômeno que se explica fácil ao ver pessoas compartilhando o almoço do dia!!! Ou seja, a mídia digital era uma armadilha para o ego do jovem e bem-sucedido empreendedor, que não conseguia controlar a ansiedade e a atenção plena às suas caixas postais e mensagens, seguido de um sentimento de exaustão e culpa por expor-se, sem pudores, a um dos mais de 1.000 “amigos virtuais” do Facebook.

No seu tratamento clínico da dependência digital, o jovem programador entendeu que estar conectado com as mídias não significa estar ligado com as pessoas verdadeiramente, e que ter cinco mil amigos no Face não garante que você não seja um solitário. O tipo de relação ou conexão que as mídias sociais trazem são insípidas e, muitas vezes, incipientes. Ou seja, elas não passam do estágio 1 das relações humanas, em que se prescinde do contato físico e do indispensável olho no olho!!!

Essa geração da dispersão da fala, da fragmentação do pensamento, da instantaneidade da resposta e da superficialidade dos sentimentos frustra na medida em que quem repassa aquela linda oração sobre compaixão e fé, na verdade, é a fofoqueira da família!!!

É muito complexo explicar, num comentário de dez minutos, como eu me tornei uma eremita digital, ou quase isso, ao abdicar das duas principais mídias sociais que usamos hoje, e isso também é uma experiência empírica na vida de uma consultora da área de telecomunicações. Neste caso, fui meu próprio médico, minha própria treinadora, meu coach, para usar um termo da moda! Dei meu “grito de liberdade” digital depois que meu corpo, e não minha mente, começou a dar sinais de pane, com níveis elevados de ansiedade e insatisfação só subindo, na mesma proporção que a minha pilha de leituras imprescindíveis, filmes recomendados e débito no ranking de horas saudáveis a serem curtidas com meu filho e minha família.

Ao renunciar à curtição do post alheio, virei eu motivo de curtição ao anunciar minha saída no Facebook. “Não exponha as suas fragilidades e carências”, disse-me uma amiga próxima! Bingo!!! No reino da hipocrisia das mídias sociais, para usar uma expressão muito forte, a gente não pode mostrar o lado humano de quem não quer robô nem seguir o fluxo da corrente dessa vida de segundo a segundo, quando você começa a se afogar no mar de lama da hiperinformação e comunicação.

Não tive tempo para dizer: mas isso não é carência!!! É conhecer e respeitar os próprios limites!!! É resgatar o seu tempo tomado por memes e mensagens vazias como um balão!!! É assumir o manejo do próprio tempo e saber priorizar, ao invés de esparramar!!!

Sair do Facebook, Messenger e similares não é desconectar-se dos outros. É conectar-se consigo!!! É tomar as rédeas de uma vida que é real, e de um corpo que não funciona no tempo dos microprocessadores. Nós não somos computadores, ainda que cada vez mais eles sejam uma extensão de nós mesmos!!! Não tenho nada contra a inteligência artificial, mas ela vai ter que saber lidar com a minha dimensão humana!!!

Então, agora é assim: quer falar com a Beth, fale com a Beth. Beijo, me liga!!! Nada de mensagem, curtir, compartilhar, comentar. Me liga!!!

E complementando o comentário da semana passada, desde o surgimento do Pokémon Go, a mídia reflete o aumento no número de roubos de celulares no Brasil. É importante estabelecer regras para o uso do celular pelo seu filho, até porque a mobilidade do celular está limitada por questões de segurança em várias capitais do país, pelo alto índice de roubos verificados. Ou seja, há cidades em que não é possível mais usar o celular na rua para não ser atacado por um trombadinha. Outro problema é a subnotificação, uma vez que a maior parte das pessoas não faz o boletim de ocorrência. Essa é uma questão relevante a ser tratada pelas autoridades de segurança do País.

Mande seus comentários, dúvidas e sugestões para papodefuturo@camara.leg.br

 

¹ Disponível em: <http://www.fastcompany.com/3012521/unplug/baratunde-thurston-leaves-the-internet>. Acesso em:  23 ago 2016.

 

***Poderá haver diferenças entre o texto escrito e a coluna realizada ao vivo no programa "Com a Palavra", da Rádio Câmara***

Roteiro e comentários – Beth Veloso
Apresentação – Elisabel Ferriche e Lincoln Macário