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12/07/2016 12h29

Em um dia sem internet, tudo o que resta é a escuridão

Beth Veloso relata nesta edição a experiência de ficar sem internet em um mundo movido a operações de crédito online, aplicativos de rede integrados e uma comunicação que se movimenta na velocidade da luz

CONECTIVIDADE
Rumei para esta viagem com uma leitura educativa, uma autoajuda do budismo! A cada respiração te ensina como focar na sua respiração para cessar as fabricações mentais, a fabricação das ações e a fabricação física. É mais ou menos assim, diz o autor do livro, Ajhan Thanissaro, renomado monge da tradição da floresta, a mais antiga nas correntes do Bubha. Você vai para uma reunião pensando na última briga com a sua chefe. Fabricação mental. Você começa a pensar como reagir num eventual segundo round. Fabricação das ações. E você começa a angustiar-se com isso. Encurta a respiração, tensiona os músculos. Fabricação do corpo. A respiração pode ser um lugar confortável na sua vida, diz o monge, algo como um porto seguro para uma vida longe de tensão e bem mais perto do aqui e agora.

A respiração para os budistas é mais uma metáfora da necessidade de estarmos presentes e completos dentro do que estamos fazendo. Ela é como parte do que somos, ainda que não a percebamos. Uma metáfora que, eu diria, para os tempos modernos, tão importante quanto a conectividade. Eu nunca passei mais do que um dia sem respirar, mas um dia sem internet foi, de fato, uma experiência assustadora na minha vida. Foi quando percorria parte do caminho que me trouxe até aqui, Portugal, num breve pit stop em Miami.

Queria entender porque a cidade é a queridinha dos brasileiros, embora só tenha encontrado colombianos e outros hermanos no meu caminho. Na chegada, 15 minutos de internet livre no aeroporto seriam suficientes para chamar o Uber e para avisar ao meu anfitrião: cheguei! Até que tudo começou a dar errado!

O tempo acabou, o cartão de crédito não funcionou e meu Uber não chegou! Os táxis amarelos me cobraram o equivalente a seis viagens de Uber Pool, aquele que você compartilha a viagem com outros passageiros que estão no seu caminho! Tipo: somos aqui um ônibus compacto, ou um carro pirata à La brasileira, coletando pessoas à frente!!! Em Miami é tudo legal e uma corrida pode te custar somente três dólares.

Ou seja, é claro, o Uber Pool é uma experiência inesquecível! Conheci uma russa, um americano envergonhado quando perguntei como Donald Trump chegou até ali e uma risonha governanta cubana. Me fez lembrar um aviso num bar, acho que em Cuba mesmo, que vi na internet: não temos Wi-Fi, hablan com vocês mesmos!!! Eu não tinha Wi-fi nem 4G, não tinha dólares em dinheiro, e o meu cartão essencial, mas nada especial, do banco resolveu me criar problemas: na cidade ultra conectada com o mundo real, recheada de carrões e pernas femininas de fora, eu estava desconectada dos meus amigos, da minha conta bancária e sem poder falar a língua mais universal do mundo: a do dinheiro. Eu não tinha um centavo de dólar no bolso!!! E isso não era o pior: o meu aplicativo Uber não funcionava!!!

Na perna da viagem até Miami, lia uma matéria que comparava existência com materialidade, e a filosofia superada de Aristóteles de que existência é uma pré-condição da realidade, em que a materialidade seria uma consequência natural. Eu não conheço, nas contingências atuais, nada tão real e concreto quanto a necessidade que temos por uma conectividade que permita locomover-se num mundo movido pelo dinheiro de plástico que circula por redes nada intangíveis. Quando meus parcos reais ou os poucos euros na carteira não funcionaram, minha saída foi buscar um Wi-Fi para poder sair do hotel, em que meu anfitrião me enviava o Uber caroneiro, e me avisava para sair correndo antes que eu perdesse o meu sinal, sob protestos de eu abusava da sua hospitalidade.

Minha materialidade e minha mobilidade estavam atreladas à ideia de que, sem poder falar com o meu gerente de banco e com um “teledefunto” na mão, eu não era ninguém em Miami! Isso porque eu me recusei a pagar 75 dólares por um Sim card no aeroporto de Miami, ou seja, saudades dos cartões pré-pagos que compramos aqui no Brasil por 15 reais. Foi uma economia que me custou 24 horas de sufoco, em que me senti uma mendiga do Wi-Fi ou de uma conta de Uber alheia. Eu comprava o sanduíche, mas comia mesmo era a internet do estabelecimento, e o pobre coitado do meu anfitrião do Airbnb, esses sites em que você aluga um quarto e ganha um amigo, mandava-me os Uber Pool, compadecido com o meu desespero cada vez que o aplicativo me informava que meu cartão estava inválido.

Respirar de forma consciente é um ritual de sabedoria para os budistas, ritual que se torna quase impossível quando a extensão virtual da nossa urbanidade desaparece. Para os budistas, a respiração correta passa por pelo menos cinco etapas: respiração confortável focada no nariz; migrando para as sensações da respiração no abdômen e no corpo, expandindo-se para a cabeça até o ponto entre os olhos e eu que me esqueci dos dois últimos.

Mas é a internet, ou melhor, a falta dela, o que mais tira o ar, o chão e qualquer capacidade de sobrevivência digna de um ser humano no mundo movido a operações de crédito online, aplicativos de rede integrados e uma comunicação que se movimenta na velocidade da luz. A comparação pode parecer bizarra, mas é como uma vela: sozinha na sua existência real, ela preenche todo o ambiente, ainda que sua luz não seja material. Fora disso, queridos, tudo o que resta é a escuridão.

***Poderá haver diferenças entre o texto escrito e a coluna realizada ao vivo no programa "Com a Palavra", da Rádio Câmara***

Roteiro – Beth Veloso
Apresentação – Elisabel Ferriche e Lincoln Macário