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08/03/2016 12h19

Por que o rádio digital demora tanto?

Enquanto a cidade de Rio Verde, em Goiás, nem TV analógica tem mais, o rádio continua na era eletrônica e parece que isso não tem data para mudar

Nem televisão, nem internet. O assunto hoje é o rádio no Brasil, que, para muitos, pode estar com os dias contados. Quem conhece, no entanto, a audiência maciça dos comentaristas de política não tem dúvidas: o rádio no Brasil segue firme e forte. São mais de 3.209 emissoras somente FM em todo o País, além de outras 1.781 emissoras de Ondas Médias e mais 4.631 rádios comunitárias. Quem não gosta de ouvir no carro o seu bom dia do rádio, dicas de trânsito, ou os últimos comentários da política?

Na Internet, o rádio até já se digitalizou, e não o contrário, como muitos profetizavam. Ou seja, as novas mídias podem ter matado o velho e antigo rádio de pilha, mas a comunicação por voz continua lá, agora online na Internet. Ou você pode simplesmente baixar o link deste programa na hora que quiser.

Lançado oficialmente em 1922, com uma transmissão do presidente Epitácio Pessoa, o rádio no Brasil completa quase um século bem diferente do que era antes: sumiram as radionovelas, os programas famosos da Era do Rádio, como Carmem Miranda, Emilinha Borba e Grande Otelo e perdeu para a televisão o posto de veículo de massa por excelência. Mas na modernidade dos engarrafamentos e da vida agitada do dia-a-dia, o rádio continua sendo um bom companheiro. Segundo dados do Ibope Media de 2014, o brasileiro ouve rádio cerca de 3 horas e 50 minutos por dia, até mesmo quando assiste televisão.

Com a TV Digital por aí, onde está o rádio digital, aquele que pode mostrar para nós a música que está tocando, sem que você tenha que usar o aplicativo do seu smartphone para isso?

Enquanto a cidade de Rio Verde, em Goiás, nem TV analógica tem mais, o rádio continua na era eletrônica e parece que isso não tem data para mudar. Em 2011, a Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara criou uma Subcomissão Especial do Rádio Digital e fez um diagnóstico do programa, mas, até agora, a digitalização do rádio ainda não saiu do papel. Os dois principais sistemas em estudo, segundo os testes feitos pelas emissoras, com acompanhamento da Anatel, não se adequam muito bem à realidade brasileira, e o setor vai meio que empurrando com a barriga uma mudança que o brasileiro merece: maior qualidade de áudio e diversidade na produção do rádio, além de um número ainda maior de emissoras.

Em 2010, o Ministério das Comunicações chegou a lançar uma Portaria com os objetivos do Sistema Brasileiro de Rádio Digital, entre eles, incentivar a indústria nacional, promover a cultura e aumentar o número de rádios universitárias. Um dos dilemas da migração para o digital é que o sistema a ser adotado, qualquer que seja, terá que operar no mesmo canal, para reduzir o custo da migração para as emissoras e dar conforto para o ouvinte continuar sintonizando sua rádio preferida na mesma frequência atual. Aí, restam como opção apenas os sistemas HD Rádio e DRM, cujas diferenças são a adequação para FM ou AM.

Até o momento, o melhor que o governo tem feito pelas rádios no Brasil é permitir a migração das emissoras AM para a Frequência Modulada, ou seja, FM, mas essa modernização não é o bastante para atender às exigências de um consumidor/ouvinte ávido por estar informado ou curtir o último lançamento do sertanejo universitário.

Nem de longe os debates do rádio digital tem merecido a mesma atenção dos governantes que a TV, a prima rica da radiodifusão. Tudo é uma questão de poder aquisitivo, para onde vai a verba publicitária, e aí a receita do rádio é bem baixinha mesmo. As rádios comunitárias nem sequer podem ter nenhum tipo de patrocínio. Como a fase de rádio clube – em que as emissoras eram financiadas pelo próprio ouvinte, que tinham uma cota de participação – passou, é preciso que o Estado assuma um papel mais altivo e ativo na digitalização do rádio no Brasil, debate hoje bastante entregue nas mãos das entidades de classe, como a Abert, que representa as emissoras comerciais.

Sem uma migração adequada, muitas emissoras vão, simplesmente, ficar mudas para sempre. Sem um financiamento voltado para o desenvolvimento do setor e que leve em conta o papel social e cultural que o rádio representa no Brasil, o futuro é sombrio para quem usa equipamentos de 40 anos atrás. E é preciso que o Congresso, também, assuma o seu papel de protagonista nesta história, uma vez que a maior parte dos projetos que tramitam aqui quer apenas flexibilizar o horário da Voz do Brasil ou, simplesmente, acabar com o programa mais antigo do rádio brasileiro.

Ora, para que apagar o passado, se ainda não abrimos a janela do futuro? Nós, que estamos aqui dentro de um estúdio de rádio, e especialmente eu, que voltei para o rádio depois de 25 anos de jornalismo, podemos dizer sem medo: o rádio é uma verdadeira paixão nacional!

Tomara que o governo entre logo nesta frequência, modulando suas políticas para ouvir aquilo que é tão precioso para o povo brasileiro.

Se é para terminar com um slogan, eu diria: rádio digital já! Para que esperar?

***Poderá haver diferenças entre o texto escrito e a coluna realizada ao vivo no programa "Com a Palavra", da Rádio Câmara***

Roteiro – Beth Veloso
Apresentação – Mariana Monteiro e Márcio Salema



Comentários

Vagner Abreu | 12/10/2016 20h45
Entendo que o dilema é qual tecnologia seria melhor aplicada como padrão de lei. Neste caso, o ideal é que se use padrões sem grandes custos a empresas e usuários. Outro porém é que uma das tecnologias em estudo, a Digital Radio Mondiale, ainda está em fase de aprimoramento. Talvez por isso o temor em sua utilização. Lembremos que apesar de apenas uma cidade no Brasil não ter transmissão em padrão eletrônico analógico, grande parte das cidades ainda não conseguiram sua migração.
Bruno Faria | 10/03/2016 17h37
Olá, boa tarde. A questão de aparecer o nome da música que está tocando não é somente pelo fato do rádio não ser digital. Atualmente, a tecnologia "mais nova" para a emissora FM é o RDS (radio data system), que faz a função de exibir no display do rádio o nome da emissora, da música ou do cantor. Existem empresas nacionais, como a Teletronix, que produzem esse tipo de equipamento. Vale a pena dar uma conferida!