Ir para o conteúdo. | Ir para a navegação

15/09/2015 10h26 - Atualizado em 06/01/2016 12h12

Papo de Futuro: a internet e a morte insepulta do jornalismo

A consultora da Câmara para a área de ciência, tecnologia, comunicação e informática, Beth Veloso, discute a situação do jornalismo frente às novas tecnologias da informação.

Deparo-me com um texto sobre a necropsia de uma instituição. Diz o texto que jaz nas telas de computadores, laptops, tablets e smartphones o cadáver insepulto do jornalismo tupiniquim. Trata-se de uma crítica ácida de um jornalista sobre tudo o que se escreve hoje nas páginas dos jornais, agora cada vez mais virtuais.

“Rasgaram o manual do jornalismo!” Sugere o jornalista experiente e descontente. Hoje, assim como nas ruas, vemos nas redações o afã por fazer justiça com as próprias mãos. É verdade que o jornalismo sempre viveu seus lemas, como a imparcialidade da notícia, a ética acima de tudo e a pluralidade de opiniões, como um verdadeiro dilema.

Como uma espada sobre sua cabeça, o jornalista seguia, sobretudo, a linha editorial do jornal. A “blogmania” perpetrada pelas novas tecnologias tornou a ditadura dos padrões um pouco mais flexível, mas a verdade é que este movimento pela mídia independente perdeu muito terreno para o "compartilhar" das redes sociais. Ou seja, no Facebook e Google e outros portais de notícia, a grande mídia voltou a dominar com a sua indústria de versões.

O fogo amigo mostra que o jornalismo perdeu muito dos seus pudores ao trocarmos a tinta das prensas pelos teclados e bits da notícia instantânea! É claro, a notícia ficou mais precária, mais telegrama do que carta, mais achismo do que sentença.

A velocidade privilegiando a veracidade da notícia também fala muito sobre a capacidade cada vez menor de darmos um "erramos". Corrigir uma notícia é algo que não funciona bem na internet, já que cada notícia atinge um caminho diferente, e nem sempre é possível rastreá-la ou recuperá-la por inteiro, além de prever os danos que causou.

No tempo em que existia diploma de universidade, os códigos de ética e conduta parece que tinham mais valor. Por mais que a imprensa sempre tenha sido o quarto poder, não se podia emitir qualquer opinião assim, de qualquer forma, nem julgar sem julgamento. Como a Internet impactou nesses códigos de ética tem a ver com o fato de que, na internet, todo mundo adquiriu o seu canal de comunicação. Todo mundo faz a sua notícia, o seu comentário, emite a sua opinião e dá a sua sentença. Mas esse excesso de liberdade dos internautas comuns não pode ser levado ao pé da letra por aqueles que fazem da notícia o seu ofício. Todo mundo pode bancar o médico, mas a conduta em si, só mesmo o cirurgião para dizer o que fazer.

A exigência do diploma de jornalista acabou em 2009, por decisão do Supremo Tribunal Federal. O direito de respeito está à espera de uma lei que o regulamente. E muitos acham que o jornalismo virou uma terra sem lei, em que ritos básicos como ouvir diferentes fontes, o direito ao sigilo, o contraditório e a isenção da notícia não combinam mais com uma comunicação que, agora, faz de jornalistas atores com razoável visibilidade no Youtube.

Pode estar faltando profissionalismo e sobrando vaidade, ego e irresponsabilidade num jornalista que não é mais feito de lead, apuração e análise da notícia. O que manda, agora, são o número de “likes” e a virulência dos comentários. Onde está escrito o código de ética do jornalismo na internet brasileira?

Mande suas dúvidas e sugestões para papodefuturo@camara.leg.br

Apresentação – Elisabel Ferriche e Lincoln Macário
Participação especial – Beth Veloso