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01/09/2015 10h34 - Atualizado em 06/01/2016 12h09

Papo de Futuro: acreditar e mudar – a lição sobre o celular em sala de aula

A consultora da Câmara para a área de ciência, tecnologia, comunicação e informática, Beth Veloso, discute o desafio dos professores frente ao uso do celular por alunos em sala de aula.

Não se pode acreditar em tudo que se ouve ou vê na Internet. Mas algumas notícias prescindem de averiguação. Elas são simplesmente boas demais para não serem críveis. Não importa a origem ou identidade da notícia quando a mensagem, por si só, é tão verdadeira. Li num dos grupos da família uma notícia sobre um juiz, um aluno, e o celular na sala de aula. Tudo a ver com o nosso bate papo semanal aqui na Rádio Câmara. Pois a notícia despretensiosa sobre mais um caso de indisciplina escolar foi uma das maiores verdades que li nos últimos tempos. Como a internet às vezes nos faz felizes!

A tal história do juiz que negou indenização para um péssimo aluno que preferia ouvir música a ouvir o mestre em sala de aula é o exemplo do País que dá certo. O aluno aprendeu a lição da sua vida ao ser repreendido pelo juiz quando pediu indenização à Justiça por considerar-se humilhado quando o professor expulsou o celular da sala de aula. Deveria ter expulsado o aluno junto!

Dizendo-se impotente e humilhado, o aluno, instado pela mãe a rebelar-se, subverteu não apenas as regras escolares, mas feriu algo que falta muito aos jovens de hoje: respeito não apenas pelas regras, mas pela autoridade. Na briga entre o professor e o celular, o dito juiz deu uma aula de cidadania. Antigamente, disse ele, ensinar era um sacerdócio e uma recompensa; Hoje, parece um carma.

Como falar dos tempos fenícios e do Antigo Império egípcio ou de algoritmos e frações quando o aluno está escutando Coldplay, a famosa banda inglesa, na sala de aula? Se nem os pais conseguem mais dialogar com os seus filhos fora do mundo digital, que dirá os mestres que não devem ensinar com carinho, mas com disciplina, num mundo frouxo de valores e limites como o atual? Certa feita, sem confiar na capacidade do meu filho de enquadrar-se ao castigo de ficar sem o WhatsApp, enviei uma mensagem para ele! Bingo! Entregue! Desta feita, confisquei não só o aplicativo, mas o celular.

Ao desferir um golpe nos alunos e mães revoltados, o juiz lembrou o que todos nós já sabemos: um estudante não usa o celular nem para trabalhar, nem para estudar ou para qualquer outra atividade edificante. Então, perguntamos: que inclusão digital é essa que não inclui o aluno dentro do seu projeto acadêmico, mas concorre com ele e o faz desmerecer a figura do professor e jogar fora uma carreira promissora pela frente apenas pelo vício do “zap zap”?

O que o nobre magistrado nos leva a refletir é: qual é o sentido de uma massificação de dados que não é guiada por um programa educacional em nível nacional que possa fazer do celular uma ferramenta educacional efetiva, e não uma arma de enfrentamento da autoridade de um docente? Docente este, que, nas palavras do juiz, tem como missão tirar todos nós da escuridão da ignorância. Mais ainda! Nas palavras do juiz, “julgar procedente esta demanda é desferir uma bofetada na reserva moral e educacional deste país, privilegiando a alienação e a contra educação, baseada nas novelas, nos reality shows, na ostentação, no bullying intelectivo, no ócio improdutivo, enfim, toda a massa intectivamente improdutiva que vem assolando os lares do país, fazendo às vezes de educadores, ensinando falsos valores e implodindo a educação brasileira".

Presto meu tributo a este juiz que nos ensina que lugar de celular não é na sala de aula, apesar dos diretores, educadores e professores que, de forma condescendente ou omissa, fazem vista grossa aos efeitos maléficos do uso do celular nas escolas. Distração, desrespeito, culto ao hedonismo e ao exibicionismo são alguns dos impactos morais do uso dessas tecnologias no ambiente de ensino e aprendizagem. Totalmente desnecessário. Internet na escola, só para pesquisas, busca de informação, produção de conteúdo, disseminação do conhecimento. O resto é apenas a ponta do iceberg da falência do sistema educacional brasileiro. Manda quem pode, obedece quem tem um juiz deste!

Mande suas dúvidas, sugestões e críticas para papodefuturo@camara.leg.br

Apresentação – Elisabel Ferriche e Lincoln Macário
Participação especial – Beth Veloso