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03/08/2015 12h49 - Atualizado em 06/01/2016 12h02

Papo de Futuro: as redes que funcionam – ou não – entre Minas e Alagoas

A consultora da Câmara para a área de ciência, tecnologia, comunicação e informática, Beth Veloso, relata a experiência que teve em relação à internet e à telefonia ao viajar pelas estradas de Minas Gerais e Alagoas.

Existe um ditado que fala muito sobre os sentimentos da gente. Mas que em nada se aplica ao novo mundo digital. O ditado é: “o que o olho não vê, o coração não sente”. Poucas coisas me angustiaram tanto nos últimos 15 dias quanto a falta de um sinal de internet. As ondas eletromagnéticas são invisíveis, mas a vida fica muito pior sem elas. A vida mudou de dimensão quando eu entrei no carro e rumei para o Rio de Janeiro pela BR 040. No meio do caminho, havia de tudo: caminhões, pedágio, buracos, uma estrada perigosa, menos sinal de internet no celular, o que a gente chama de 3G. Na verdade, muitas vezes, não havia sinal algum, e uma emergência na estrada só poderia ser resolvida com orelhão, o que também não há.

É realmente impressionante o tamanho do País. Cobrir todo esse território com uma comunicação moderna é uma tarefa que leva tempo, e o crescimento da telefonia móvel, incluindo a internet móvel, tem sido impressionante. Mas considerar que uma cidade como Ouro Preto, patrimônio histórico da humanidade, não tenha nem sinal de voz no celular é realmente desesperador.

A telefonia móvel funciona assim: é preciso ter uma série de torres conectadas entre si com uma pequena distância entre elas para que tudo dê certo. Uma montanha, edifícios mais altos, tudo atrapalha. Mas o fato é que um planejamento mais amplo das operadoras, maior compartilhamento de antenas e a compreensão dos municípios na instalação de equipamentos são medidas importantes para acelerar essa cobertura nacional do celular, com ou sem internet.

Algumas soluções me chamaram a atenção para superar esse abismo entre a necessidade de maior cobertura, que é enorme, e a capacidade das grandes operadoras de atender as demandas reprimidas do setor de telecomunicações. Na cidade de Barra de Santo Antônio, em Alagoas, quase uma vila de pescadores, a internet chega aos moradores por conta da iniciativa de uma pequena empresa que enxergou ali um modelo de negócios interessante. Na pequena vila de pescadores, onde a economia é baseada no peixe, rede não tem nada a ver com conexão ou cabeamento, mas, sim, com um emaranhado de fios que viajam em bonitas jangadas. Lá, jovens passam a tarde não atrás do computador, como nas grandes cidades, mas costurando os buracos deixados nas redes de náilon pelos peixes maiores.

Barra de Santo Antônio é daqueles lugares onde vemos crianças descalças brincando nas ruas enlameadas no meio da tarde, enquanto um senhor com a pele cansada do sol e do mar se distrai com seu telefone, espraiado na porta de casa. São imagens impressionantes de um tempo em que a internet só chegou para alguns, enquanto para outros a lenta conexão vai toda embora na hora da chuva. Abrir uma simples página pode levar dois minutos marcados no relógio, e a dona da farmácia no litoral alagoano simplesmente me diz: “venda só no dinheiro. O telefone fixo não funciona há 24 horas na cidade toda. Sendo assim, o cartão de crédito também não passa”.

Compartilho silenciosa a angústia daquela comerciante que não consegue fazer o pedido de compra para repor o lote de aspirina. Nas lindíssimas praias de Alagoas, a rede que funciona, faça sol ou faça chuva, é aquela que vai nas coloridas jangadas em busca dos peixes.

Duas semanas sem internet, seja na estrada ou no mar, amplificam a minha angústia e podem me custar alguns amigos, magoados pela ausência de resposta a e-mails e mensagens de aplicativos. Ninguém vai entender que, mesmo estando ali, em Minas Gerais ou Alagoas, eu tenha ficado tão longe desse mundo ideal e instantâneo da comunicação digital.

Entre nenhuma internet ou uma conexão discada que leva de 2 a 5 minutos para abrir uma página, oscilo nos sentimentos de angústia pelo ônibus que não passa, ou de desespero por aquele que passa, mas quebra na curva. Para alguns, não há diferença e nenhum deles vai te levar a lugar algum. Para outros, o ônibus lento e precário, pelo menos, te deixa mais próximo do destino. Por mais que seja longo o caminho, um dia você chega lá.

Apresentação – Elisabel Ferriche e Sérgio Duarte
Participação especial – Beth Veloso