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08/11/2017 - 13h16

Wesley Batista permanece em silêncio em depoimento na CPMI da JBS

Empresário reclamou que está preso enquanto as pessoas delatadas por ele estão soltas e irritou os parlamentares ao se negar a responder perguntas

Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Oitiva com o acionista e controlador do Grupo J&F Investimentos, Wesley Batista
Presidente da CPMI (segundo da esquerda para direita) ameaçou pedir a revogação de Wesley Batista (sentado à direita dele)

Durante pouco mais de duas horas em que permaneceu na audiência conjunta da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da JBS e da CPI do BNDES (do Senado), o empresário Wesley Batista, um dos controladores do grupo J & F, se recusou a responder perguntas de deputados e senadores, usando o direito constitucional de permanecer calado.

O silêncio diante das perguntas fez com que o presidente da CPMI, senador Ataídes Oliveira (PSDB-TO), anunciasse que vai pedir à Justiça a revogação da delação premiada dos controladores da JBS. O senador alegou que a Lei das delações premiadas (12.850/13) obriga o delator a abrir mão do silêncio. “Vou seguir as orientações dos meus advogados e ficar calado”, insistiu Batista.

Antes do interrogatório, o empresário leu um comunicado em que afirmou estar disposto a colaborar assim que for resolvido o impasse judicial relativo aos efeitos de sua colaboração premiada. Ele negou ainda ter descumprido as cláusulas do seu acordo de colaboração judicial e se disse injustiçado por estar preso enquanto as pessoas que delatou estão soltas.

Wesley e o irmão Joesley Batista, assim como o executivo Ricardo Saud, perderam os benefícios legais de sua delação, entre os quais a imunidade penal, depois que foram acusados de omitir informações do Ministério Público – principalmente sobre a participação do ex-procurador da República Marcelo Miller nas tratativas relativas à colaboração.

“Estamos vendo colaboradores sendo punidos e perseguidos pelas verdades que disseram. Isso fez o Brasil se olhar no espelho, mas como ele não gostou do que viu, temos delatores presos e delatados soltos”, disse Batista antes das perguntas dos integrantes das comissões.

Wesley Batista disse ainda não estar arrependido de colaborar com a Justiça. Ele descreveu o processo de delação premiada como uma decisão “difícil e solitária” e classificou a reviravolta dos benefícios que obteve com a colaboração como um “retrocesso”.

Acusação
Wesley e Joesley Batista, estão presos, suspeitos de usar informações privilegiadas para obter lucro com compra a de dólares e a venda de ações da própria JBS antes da divulgação do acordo de colaboração que fizeram com o Ministério Público.

As operações financeiras questionadas foram realizadas entre 3 de maio, quando foi assinado o acordo de delação premiada, e 17 de maio, quando foi divulgada a gravação entre Joesley e o presidente Michel Temer, quando o acordo de colaboração se tornou público.

Assessoria do ex-procurador
Os integrantes das duas CPIs não esconderam a irritação com o silêncio do empresário. “Eles não podem dizer a verdade porque no dia que disserem a verdade as delações serão anuladas”, disse o deputado Paulo Pimenta (PT-RS).

Batista se recusou a responder perguntas sobre a participação do ex-procurador Marcelo Miller na negociação dos acordos de colaboração.

Em depoimento à CPMI, o advogado Francisco de Assis e Silva, ex-diretor jurídico da JBS, disse que Miller ajudou na formatação da proposta de delação premiada dos executivos do grupo quando ainda fazia parte da equipe do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot.

Segundo ele, Miller teria orientado Wesley e Joesley a respeito dos termos da delação em fevereiro, dois meses antes de se desligar oficialmente do Ministério Público para atuar como advogado em um escritório encarregado de atuar para a JBS no acordo de leniência.

“Alguém tem dúvida de que a organização capitaneada também pelo Wesley cooptou um procurador da República?”, perguntou o relator da CPMI, deputado Carlos Marun (PMDB-MS).

Propina no Ceará

Batista também se negou a contestar acusação feita pelo deputado João Rodrigues (PSD-SC), que apresentou documentos que comprovariam, segundo ele, o pagamento de propina a um candidato ao governo do Ceará em troca de benefícios fiscais concedidos pelo estado a uma empresa do grupo JBS.

“Vocês trataram o Legislativo como um bando de canalhas e ladrões, e o Judiciário como se fosse casa de vocês. Além disso, brincaram com a economia do País e no dia seguinte da celebração do acordo foram para Nova York rir da cara dos brasileiros”, acusou o deputado diante do silêncio do depoente.

Reportagem - Antonio Vital
Edição - Natalia Doederlein

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