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10/10/2017 - 19h36

Ex-presidente da CEF e ex-diretor do BNDES negam irregularidades em operações com a JBS

Lúcio Bernardo Jr./Câmara dos Deputados
Reunião para deliberação de requerimentos
Ex-presidente da CEF, Maria Fernanda Coelho disser à CPMI não ter sofrido pressões de políticos em favor de empresas quando ocupou o cargo

Em depoimento na CPMI da JBS, a ex-presidente da Caixa Econômica Federal Maria Fernanda Ramos Coelho negou ter sofrido qualquer pressão dos ex-ministros da Fazenda Antonio Palocci e Guido Mantega para atender pedidos de crédito de empresas.

Ela foi questionada sobre o assunto pelo deputado Delegado Francischini (SD-PR), um dos sub-relatores da CPMI da JBS, em reunião nesta terça-feira (10)

Ela negou ainda ter tido contato com Geddel Vieira Lima, ex-vice-presidente de Pessoa Jurídica da Caixa; com Fábio Cleto, ex-vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias; com o ex-deputado Eduardo Cunha ou com o operador Lucio Funaro – todos acusados pela Operação Lava Jato de envolvimento em pagamento e recebimento de propina relativa a recursos do Fundo de Investimentos do FGTS liberados pela Caixa. “Cleto e Geddel se tornaram vice-presidentes quando eu saí”, afirmou.

Francischini disse estranhar que dois dos empréstimos da Caixa à JBS, feitos no período em que Maria Fernanda presidia o banco, tenham sido autorizados perto da eleição de 2010. “Esses dois empréstimos somam R$ 1 bilhão em um período de um mês, em dezembro de 2010 e janeiro de 2011. Alguma outra empresa recebeu tanto em tão pouco tempo?”, indagou. “Não tenho conhecimento”, respondeu a ex-presidente da Caixa.

Conflito de interesses
O segundo depoente do dia, José Cláudio Aranha, convocado para explicar investimentos do BNDESpar - o braço de participações acionárias do BNDES - no grupo JBS no período em que acumulou a chefia do Departamento de Investimento na Área de Mercado de Capitais do banco com um cargo de conselheiro da JBS, entre setembro de 2007 e junho de 2008.

Os membros da CPMI queriam saber se o acúmulo de cargos não foi danoso ao BNDES e se não havia conflito de interesses na dupla atuação. Aranha negou e disse ter sido indicado pelo próprio vanco, sócio da empresa, para representá-lo no conselho da JBS, depois de ter elaborado apenas um parecer técnico sobre a aquisição da empresa americana Swift, em 2007.

O ex-funcionário disse ainda que, na época, a proposta da JBS de aquisição da Swift, que passava por problemas financeiros, era interessante porque mudaria o perfil da empresa e abriria mercados na Ásia e na Oceania. Depois, em 2008, como conselheiro da JBS, aprovou a aquisição de outras duas empresas norte-americanas, a Smithfield e a National Beef.

"Não existe conflito entre um conselheiro, que tem que votar de acordo com a sua consciência e com os interesses da companhia, e um chefe de departamento que, dentro do processo de elaboração de relatórios dentro do BNDES, não tinha poder de decisão", explicou.

A aquisição das duas companhias pela JBS acabou vetada pelas autoridades norte-americanas por formação de cartel no setor de carne e, com isso, a empresa acabou comprando a Pilgrim´s Pride, do setor de aves. Essa operação foi questionada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) por suposto desvio de finalidade dos recursos do BNDESPar e por uma diferença de R$ 0,50 no preço das ações, pagos a mais pelo BNDES.

Aranha e o ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho, ouvido pela CPMI na semana passada, negaram prejuízos com a operação e explicaram que essa diferença, questionada pelo TCU, foi decorrente de preço das ações estabelecido pelo BNDES, valor pelo menos R$ 3 menor que o definido pelo próprio mercado na ocasião.

Tempo recorde
Os técnicos do TCU questionaram ainda outros aspectos das operações, como a aquisição da Pilgrim´s depois que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos vetou a compra da National Beef Packing Company, o que foi considerado desvio de função pelos auditores. “Eu não emiti nenhum parecer e não participei dessa fase”, disse Aranha.

O ex-chefe de departamento, porém, deu uma explicação diferente da fornecida por Luciano Coutinho para outra crítica feita pelos técnicos do TCU a respeito dos financiamentos da JBS pelo BNDESpar: a de que as operações, complexas, eram aprovadas em tempo recorde de menos de um mês.

Segundo Coutinho, as operações eram analisadas por nove meses antes de serem registradas e se tornarem públicas, justamente para evitar vazamentos que poderiam influenciar as bolsas de valores e serem punidos pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). “No caso da Swift, o projeto chegou em março e aprovamos em junho”, disse Aranha.

Para o deputado Delegado Francischini isso mostra que Coutinho não falou a verdade. “Foram apenas três meses, e não nove, para aprovar um projeto desse porte”, disse. 

Reportagem - Antonio Vital
Edição - Rosalva Nunes

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