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24/11/2015 - 18h10

Prisão de Bumlai abre movimento pela prorrogação da CPI do BNDES

Lucio Bernardo Junior / Câmara dos Deputados
Audiência pública para tomada de depoimentos. Presidente da CPI, dep. Marcos Rotta (PMDB-AM)
O presidente Marcos Rotta pediu apoio aos líderes partidários para prorrogar os trabalhos da CPI

A prisão do pecuarista José Carlos Bumlai na manhã desta terça-feira (24), pela Polícia Federal, horas antes do depoimento que ele daria à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do BNDES, mudou a programação da CPI, cujos trabalhos estavam previstos para acabar no próximo dia 4. O depoimento de Bumlai foi remarcado para a terça-feira (1) e agora cresce, entre os deputados, o movimento a favor da prorrogação da CPI por pelo menos 45 dias, o que depende de decisão do Plenário da Câmara.

O presidente e o 1º vice-presidente da CPI, deputados Marcos Rotta (PMDB-AM) e Miguel Haddad (PSDB-SP), defendem a prorrogação. “Já tivemos muita blindagem nesta comissão”, disse Haddad. Ele mencionou a rejeição de requerimentos de convocação dos controladores do grupo JBS Friboi e do empresário Benedito Rodrigues, o Bené. “Peço apoio aos líderes para que apoiem a prorrogação por 45 dias”, afirmou Rotta.

O deputado Carlos Melles (DEM-MG) também pediu a prorrogação. “Temos mais de 300 requerimentos de convocação ainda não aprovados e falta convocar muita gente importante”, disse.

Já o deputado Davidson Magalhães (PCdoB-BA) considera desnecessário prorrogar as investigações. “A CPI fez um bom trabalho e não vi provas de irregularidades cometidas junto ao BNDES”, disse. Segundo ele, os depoimentos colhidos até agora não implicam o banco. “O empresário Bumlai não foi preso por irregularidades no BNDES”, afirmou.

Nova data
O depoimento de Bumlai foi remarcado depois de entendimento entre o presidente da CPI, deputado Marcos Rotta, e o juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara da Justiça Federal de Curitiba (PR). Rotta leu para os integrantes da comissão ofício em que Moro pede “escusas” pelo fato de Bumlai ter sido preso horas antes do depoimento à CPI.

A CPI já havia recebido requerimentos para que Bumlai fosse ouvido em Curitiba, para onde foi levado pela PF depois de preso. “Se ele vier aqui, será melhor”, disse um dos autores dos requerimentos, o deputado Miguel Haddad.

Contratos e acusações
Bumlai foi preso em mais uma fase da Operação Lava Jato, denominada “Passe Livre”. Além da prisão do empresário, policiais federais estiveram na sede do BNDES no Rio de Janeiro, onde obtiveram cópias de contratos.

O pecuarista foi acusado por dois delatores da Operação Lava Jato – Fernando Soares e Salim Schahin –, de ter recebido propina para mediar negócios com a Petrobras. De acordo com o procurador Diogo de Mattos, do Ministério Público Federal, Bumlai obteve do Banco Schahin o perdão de uma dívida de R$ 12 milhões, que totalizou R$ 21 milhões com juros e correção monetária, depois de intermediar a contratação, pela Petrobras, do navio-sonda Vitória 10.000, do grupo Schahin, sem licitação.

O dinheiro, segundo o procurador, foi destinado ao Partido dos Trabalhadores (PT). De acordo com o Ministério Público, para justificar ao Banco Central a falta de pagamento o Banco Schahin efetivou um novo empréstimo em nome de uma empresa de Bumlai, por meio de um contrato falso.

O procurador Diogo Mattos explicou a operação: “Houve uma simulação de contrato de venda de embriões por parte do senhor José Carlos Bumlai para as fazendas de Schahin. Essa operação consistiu basicamente em uma complexa engenharia financeira e resultou no recibo de quitação da dívida. No entender do Ministério Público Federal, esse recibo de quitação consistiu na vantagem indevida que foi oferecida aos funcionários corruptos da Petrobras em troca do contrato de operação do navio sonda Vitória 10.000.”

Reações
O deputado Carlos Zarattini (PT-SP) criticou a prisão de Bumlai. Segundo o parlamentar, assim como outras prisões da Operação Lava Jato, a de Bumlai tem como objetivo forçar uma delação premiada.

“Isso é uma ameaça ao Estado de Direito. O senhor Bumlai tem endereço fixo, não está ameaçando testemunhas e poderia muito bem ter sido chamado a depor”, disse Zarattini.

Ele também criticou a apreensão de contratos entre empresas de Bumlai e o BNDES: “São documentos públicos e bastava terem sido requisitados.”

Zarattini havia recorrido contra a convocação de Bumlai pela CPI, alegando que o requerimento foi aprovado durante Ordem do Dia do Plenário da Câmara, momento em que os trabalhos das comissões devem ser interrompidos. O presidente da CPI negou o pedido de Zarattini.

O deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA), autor do requerimento, defendeu a convocação. “A prisão mostra que há necessidade de o senhor Bumlai ser ouvido pela CPI”, ressaltou.

Mais suspeitas
O delator Fernando Soares, preso pela Operação Lava Jato acusado de intermediar pagamento de propina a agentes políticos e diretores da Petrobras, disse que Bumlai o ajudou a negociar a contratação de um navio-sonda da empresa OSX, de Eike Batista, pela Sete Brasil – empresa privada criada por ex-diretores da Petrobras para construir 28 navios para a perfuração do petróleo do pré-sal, um negócio de mais de 20 bilhões de dólares.

Bumlai, em entrevista aos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, negou ter recebido propina, mas admitiu ter levado o presidente a Sete Brasil a um encontro com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele admitiu ainda ter recebido dinheiro de Baiano, mas atribuiu o repasse a um “empréstimo”.

Eike Batista, ouvido pela CPI do BNDES, negou ter usado os serviços de Baiano e de Bumlai para negociar contratos com a Sete Brasil.

Reportagem – Antonio Vital
Edição – João Pitella Junior

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