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20/09/2013 - 12h54

Duração do mandato de Sarney foi tema de relatórios

Um dos temas que dominaram os debates da Assembleia Nacional Constituinte foi a duração do mandato do presidente José Sarney. Os agentes do Sistema Nacional de Informação (SNI) acompanharam os bastidores dessa discussão.

Eleito pelo Colégio Eleitoral em 1984, como vice-presidente de Tancredo Neves, Sarney assumiu o cargo com a morte de Tancredo, em março de 1985. Pelo novo texto constitucional, o sistema de governo seria o presidencialismo, com mandatos de quatro anos. Grande parte da população se manifestava por eleições diretas já em 1988, ansiosa por eleger o primeiro presidente do País por voto direto desde Jânio Quadros, eleito em 1960.

Agência Câmara
Lula discursando no plenário Ulysses Guimarães
Presença de Lula em comícios pelas eleições diretas é ressaltada em documentos.
Os constituintes se dividiam entre os que apoiavam o fim do mandato de Sarney em 1988 e os que defendiam que o presidente permanecesse por mais um ano e que as eleições diretas para presidente só fossem realizadas em 1989.

Vários documentos do SNI registram comícios pelas eleições diretas em 1988, com a relação de quais parlamentares participaram, o teor de entrevistas concedidas pelos constituintes e a síntese dos discursos dos oradores – eventos não apenas em capitais, mas também no interior do País. Nos comícios de Goiânia (GO) e de Brasília (DF), é dada ênfase à participação do então deputado Luiz Inácio Lula da Silva, que também tem sua presença registrada no evento de Caruaru, no agreste pernambucano.

Bloco evangélico
Apesar de ter conquistado o quinto ano de mandato, Sarney chegou a ter apoio para ficar ainda mais tempo no cargo. De acordo com um dos relatórios do SNI, em fevereiro de 1987, o Bloco Parlamentar Evangélico teria apresentado a Sarney um manifesto de apoio a um mandato presidencial de seis anos.

No documento, o Serviço de Informação prevê até a criação de uma legenda: “O BPE, que é formado por parlamentares de diversos partidos, vislumbra a criação de um novo partido político e, para tanto, já está se mobilizando”. Os analistas do SNI chegam a listar os parlamentares que compõem o bloco, a situação política deles e as estratégias a serem usadas.

PMDB
Em maio de 1988, o SNI produziu relatório no qual avaliava que “o PMDB passou a viver a pior crise política de toda a sua história. Quinze parlamentares constituintes já se desligaram da agremiação e outros 93 também ameaçam abandonar a legenda”.

Arquivo
Ulysses Guimarães
Ulysses Guimarães (D) tentava evitar divisão do PMDB, apontavam os agentes.

O documento destaca a atuação do presidente da Constituinte e do partido, Ulysses Guimarães, em tentar manter o partido forte para as eleições de 1989, quando viria ele mesmo a ser o candidato do PMDB à Presidência, obtendo 4,5% dos votos válidos.

Para o SNI, Ulysses tentava “manter o partido unido, inclusive tentando anular as pretensões da esquerda, liderada pelos senadores MC [Mário Covas] e FHC [Fernando Henrique Cardoso], de cindir o partido e formar uma nova legenda”.

Os dois senadores efetivamente deixariam o PMDB, criando, em junho de 1988, o PSDB. Mário Covas, deputado federal cassado durante o regime militar, eleito prefeito de São Paulo e depois senador constituinte, havia participado da fundação do PMDB ao lado de Ulysses, Tancredo e Franco Montoro.

Reportagem – Fabiana Melo
Edição – Daniella Cronemberger

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