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08/08/2018 - 21h29

Defensores do cultivo agroflorestal pedem melhores condições de crédito e comercialização

Sistemas agroflorestais são consórcios de culturas agrícolas com espécies arbóreas que podem ser utilizadas para restaurar florestas e recuperar áreas degradadas

Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Audiência pública sobre os sistemas agroflorestais agroecológicos, legislação e políticas públicas
Audiência debateu o desenvolvimento da agricultura sintrópica no Brasil

Agrônomos, ecólogos e produtores pediram nesta quarta-feira (8) o reforço dos sistemas agroflorestais no âmbito da Política Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos (Pnara). O projeto de lei que cria a Pnara (PL 6670/16) tem foco nas práticas agroecológicas e no controle biológico de pragas agrícolas.

Em mais de cinco horas de audiência na comissão especial da Câmara dos Deputados que analisa a proposta, os defensores do cultivo agroflorestal pediram melhores condições de crédito e comercialização, além de maior investimento em pesquisa e tecnologia. Outra reivindicação é a transferência das atuais isenções tributárias dos agrotóxicos para a agroecologia.

Idealizador da chamada agricultura sintrópica, o agricultor suíço Ernst Götsch também defendeu alterações no Código Florestal (Lei 12.651/12) para que as áreas de proteção permanente (APPs) sejam transformadas em áreas de inclusão permanente.

"Leva para um aumento de recursos em todos os lados naquele lugar. Aumenta a biodiversidade, ou seja, aumenta a vida no lugar, aumenta a fertilidade do solo, aumenta a capacidade de retenção de água. A partir daquele momento, tem-se um saldo energeticamente positivo tanto em relação ao sublocal da nossa interação quanto no planeta por inteiro", afirmou.

A agricultura sintrópica é baseada em sistemas de cultivo que imitam a dinâmica e a funcionalidade dos ecossistemas originais.

Ernst Götsch fez discurso por uma "agricultura de paz", baseada na cooperação das espécies. Ele pediu "leis incentivadoras e não proibidoras", que respeitem os ecossistemas sem supervalorizar aspectos econômicos. "As espécies estão aqui para nos ser úteis e não para ver o quanto o sistema aguenta para não entrar em colapso. A primeira coisa que faço ao ver uma espécie nova é ver o que ela trouxe de bom, como um presente", afirmou.

Ao explicar o funcionamento dos sistemas agroflorestais, Götsch disse ainda que "toda espécie tem seu predador e essa é uma relação pacífica, regida pela fome e que garante a otimização do ecossistema".

Ouça esta reportagem na Rádio Câmara

O pesquisador e ecólogo Márcio Armando apontou alguns dos passos necessários para a adoção da sintropia na agricultura: prévia leitura do ambiente local a partir das condições do bioma; cuidadosa escolha de culturas; plantio de árvores de rápido crescimento junto com espécies nativas de interesse para a fauna, para a conservação ambiental e para o agroextrativismo; e otimização do uso da irrigação. Ele afirmou que a geração de renda é garantida desde os primeiros meses, principalmente nos casos de pequenos agricultores.

Resultados positivos
A audiência reuniu várias experiências com resultados positivos, inclusive na recuperação de áreas degradadas em biomas como o Cerrado e a Mata Atlântica.

Agrônomo e produtor na Associação dos Agricultores Agroflorestais de Barra do Turvo e Adrianópolis, no interior de São Paulo, Nelson Netto fez discurso enfático para destacar a alta produção de alimentos e a preservação ambiental.

"Alguém me perguntou como fazer para combater as pragas. Combate é para os inimigos. As pragas são nossas aliadas. Sim, nós podemos: aqui tem potencial, tem inteligência, tem conhecimento. Nós sabemos fazer sistemas altamente produtivos quando se trabalha realmente a favor da natureza e não competindo com ela", declarou.

A professora Irene Cardoso, da Universidade Federal de Viçosa, mostrou a adoção de diferentes sistemas agroflorestais na zona da mata mineira. Eles funcionam, por exemplo, em espaços silvopastoris, em lavouras de café e até em quintais de casa.

Os palestrantes também destacaram que esses sistemas são compatíveis com a produção mecanizada e em grande escala.

Mobilização
O relator da proposta, deputado Nilto Tatto (PT-SP), foi claro ao apontar a forte resistência da bancada ruralista, em maioria na Câmara, à política nacional de redução dos agrotóxicos. Tatto cobrou mobilização dos defensores dos sistemas orgânico, agroecológico e agroflorestal.

"A gente tem o desafio e precisamos, nesse processo de construção do relatório, que esse processo seja de mobilização porque vamos estar em uma conjuntura difícil para aprovar isso aqui. E nós precisamos aprovar para fazer o embate e mudar a forma como o Estado brasileiro encara o modelo de agricultura que a gente quer para o futuro", disse o deputado.

Tatto ainda pretende receber novas sugestões ao texto e prevê que a votação da proposta na comissão especial só aconteça após as eleições.

A audiência foi pedida por Nilto Tatto e pelo deputado Pedro Uczai (PT-SC), para quem a Pnara vai garantir políticas públicas permanentes para impulsionar os sistemas agroecológicos e agroflorestais.

Íntegra da proposta:

Reportagem – José Carlos Oliveira
Edição – Pierre Triboli

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Comentários

Patricia Almeida Ashley | 09/08/2018 - 04h36
Parabéns à Comissão do PNARA e participantes da Audiência Pública e a população precisa dessa informação para as decisões sobre quais candidatos à Presidência da República estão buscando se posicionar para a ampla difusão das tecnologias da agroecologia, sistemas agroflorestais, biodinâmicos, para produtores agropecuários, seja de alimentos para o mercado interno seja para o mercado externo. Diversos marcos e tratados em escala global estão sendo repensados e reforçados nesse sentido. A Organização Mundial do Comércio pautou o comércio sustentável para o Fórum Público 2018. E o Brasil???